Olha, antes de aplaudir a façanha tecnológica, vale parar um segundo e perguntar quem está pagando o ingresso. A Pratt & Whitney, subsidiária da RTX, anuncia que concluiu a chamada Revisão de Projeto Digital do motor XA103, peça central do programa Next Generation Adaptive Propulsion da Força Aérea americana, destinado ao caça F-35. O comunicado vem embalado em jargão de engenharia avançada, ciclo adaptativo, eficiência térmica, gêmeo digital, e a imprensa especializada repete em coro como se estivéssemos diante de um feito empresarial. Não estamos. Estamos diante da execução burocrática de uma fatura bilionária assinada pelo Pentágono, com dinheiro que não pertence ao Pentágono, e sim ao sujeito que acordou às cinco da manhã em Ohio para ir trabalhar.
O contrato do programa NGAP gira na casa dos bilhões de dólares, distribuídos entre Pratt & Whitney e GE Aerospace, e cada "marco" celebrado nos releases corporativos corresponde, na prática, a uma parcela sendo liberada do Tesouro americano. A revisão digital não é um produto vendido ao consumidor que escolheu comprá-lo, é uma entrega contratual prevista em cronograma estatal, paga antecipadamente, sem competição real, com o cliente cativo que nunca pode dizer não. Quer dizer, chamar isso de conquista da indústria privada é o mesmo que chamar de empreendedor o sujeito que vive de licitação dirigida na prefeitura. A roupagem é de mercado, a substância é de balcão.
E aqui mora a parte que ninguém quer enxergar. Cada dólar enfiado nesse motor é um dólar que não está em outro lugar. Não está na poupança da família que vê o salário ser corroído pela inflação que financia justamente este tipo de gastança. Não está em pesquisa privada de propulsão, que poderia gerar um produto comercial competitivo em vez de um experimento militar de uso restrito. Não está em redução de imposto, em pagamento de dívida pública, em qualquer outra finalidade que o cidadão escolheria livremente se tivesse o dinheiro na mão. Vê-se a manchete bonita do gêmeo digital concluído. Não se vê a fila de coisas que deixaram de existir para que aquela manchete existisse.
O arranjo é antigo e cínico. O Estado define a necessidade, o Estado escolhe o fornecedor, o Estado paga o desenvolvimento, o Estado compra o produto, e quando dá errado, o Estado paga a correção. Quando dá certo, a empresa privatiza o lucro e socializa o aprendizado em forma de propaganda institucional. É o ciclo perfeito do que os economistas mais lúcidos do século passado chamaram de aliança entre o Leviatã e o lobista, e que no Brasil a gente conhece pelo nome menos elegante de toma lá dá cá. A diferença é que em Washington a fatura tem oito zeros e vem com apresentação em PowerPoint sofisticado.
Há ainda o detalhe geopolítico que a coluna de finanças se recusa a discutir. O programa existe porque a máquina de guerra americana precisa justificar seu próprio orçamento, e cada novo motor adaptativo é mais um argumento para a próxima rodada de aumento da verba do Pentágono, que já beira valores incompreensíveis para o cérebro humano comum. A ameaça externa é real, ninguém nega; o problema é que o complexo industrial militar aprendeu há muito tempo a transformar qualquer ameaça, real ou imaginada, em pretexto para extração permanente de recursos do contribuinte. O motor melhora, a fronteira do gasto se expande, e o cidadão paga.
No fim, o que está sendo celebrado não é uma vitória da engenharia americana, é uma vitória da capacidade da grande indústria contratada pelo governo de continuar entregando exatamente aquilo que se propôs a entregar quando assinou o contrato. Bom para os acionistas da RTX, ótimo para os generais que vão pilotar o brinquedo, péssimo para quem ainda acredita que mercado livre tem alguma coisa a ver com isso. Capitalismo de verdade é quando o consumidor escolhe; o resto é fatura disfarçada de inovação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.