O pré-balanço da Vivo chega com sorriso largo, lucro inflado e um detalhe inconveniente que a maioria dos analistas trata como rodapé, quando na verdade é a manchete: o tal gatilho fiscal. Quer dizer, a empresa entrega resultado robusto, o mercado celebra, a ação respira, e no segundo parágrafo do release alguém precisa explicar por que parte daquele lucro vai evaporar antes mesmo de virar dividendo na conta do cotista. É a velha cena brasileira, repetida com figurino novo: você sua para gerar resultado, e o Estado aparece com a toalha para enxugar o suor alheio.

Olha, é preciso entender o que está em jogo. Quando se fala em gatilho fiscal disparado por aumento de lucro, o que se está dizendo, em bom português, é que existe um mecanismo legal que pune o sucesso. Lucrou mais? Paga mais, e não proporcionalmente, mas com regras escalonadas que transformam crescimento em armadilha contábil. O empresário que investe, contrata, expande rede, briga com regulação infernal e ainda assim consegue entregar resultado, é tratado como suspeito que precisa ser contido, não como produtor de riqueza que deveria ser celebrado. Inverte-se a lógica civilizatória: prosperar passa a ser indício de culpa.

Me diz uma coisa, qual é o sinal que isso manda para qualquer empresa de capital aberto operando nesse país? Simples: distribua lucro com cautela cirúrgica, planeje resultado para não cruzar a linha mágica do gatilho, e se possível terceirize crescimento para uma jurisdição mais civilizada. O efeito prático de tributar agressivamente o resultado é o mesmo de toda intervenção que se proclama virtuosa: o capital foge, o investimento mingua, o consumidor paga mais caro, e os tais "recursos arrecadados" se evaporam em ministérios cuja única produtividade mensurável é a de gerar emendas parlamentares. A janela quebrada que ninguém vê.

E aqui mora o ponto que os comentaristas de televisão não tocam, porque tocar implicaria desmontar o consenso confortável: siga o dinheiro. Quem ganha com o gatilho fiscal? Não é o brasileiro pobre, que continua pagando a conta de telefonia mais cara do mundo ocidental para sustentar uma estrutura tributária que devora margens. Não é o trabalhador da Vivo, cujo aumento real depende de uma empresa lucrativa e crescente. Não é nem mesmo o pequeno acionista, que vê o dividendo encolher antes de cair na conta. Ganham o caixa do governo, os contratantes do governo, os fornecedores umbilicalmente ligados ao governo, e a casta que vive de redistribuir o que não produz. Sempre os mesmos.

O fato concreto, despido de eufemismo, é este: empresas de telecom no Brasil operam num dos ambientes regulatórios e tributários mais hostis do planeta, com leilão de espectro precificado como joia rara, obrigações de cobertura impostas por canetada, e uma cesta de tributos que faria qualquer concorrente americano ou europeu pedir demissão da geografia. Mesmo nesse pântano, a Vivo entrega lucro. E a resposta institucional não é "ótimo, isso valida que mesmo no inferno fiscal há produtividade", é "peguem mais". A lógica do confisco vestida de tecnicalidade contábil.

O investidor atento, aquele que não se contenta com a manchete colorida do portal financeiro, deveria ler esse pré-balanço como leitura dupla: o desempenho operacional é mérito da gestão, o gatilho fiscal é demérito da estrutura. Aplaudir o primeiro sem condenar o segundo é o tipo de ingenuidade que mantém o Brasil rodando em círculos há quatro décadas. A bolsa pode subir hoje, o lucro pode brilhar amanhã, mas enquanto a regra do jogo for "se você crescer demais, nós ajustamos a alíquota", nenhum capital sério vai considerar este país destino, apenas escala técnica. Lucro recorde com gatilho fiscal armado é a metáfora perfeita do capitalismo brasileiro: você corre a maratona, e na linha de chegada descobrem que os últimos cem metros eram pedágio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.