O pré-balanço do Banco do Brasil chega com a solenidade de sempre e a pergunta de fundo que ninguém quer formular em voz alta na sala dos analistas, quanto desse lucro é fruto de intermediação financeira honesta e quanto é mero reflexo contábil de uma máquina de crédito subsidiado que o Tesouro empurrou goela abaixo da instituição durante anos. O BBAS3 não é um banco no sentido estrito da palavra, é um híbrido, parte instituição financeira que disputa rentabilidade no pregão, parte braço operacional de política agrícola do governo de plantão. E quando os dois corpos do mesmo Frankenstein começam a puxar em direções opostas, alguém quebra primeiro, e geralmente é o acionista minoritário que pagou caro por uma ação que parecia barata.

A carteira do agro é o ponto onde a contabilidade encontra a realidade. Por anos venderam a narrativa do agronegócio invencível, do Brasil celeiro do mundo, da soja que paga tudo, e em cima dessa épica plantaram uma montanha de crédito direcionado, com taxas artificialmente comprimidas, prazos esticados, e garantias que valem o que o preço da commodity disser que valem no dia da execução. Agora a soja caiu, o milho oscila, o custo do insumo importado subiu com o dólar, e o produtor que era estrela de feira em Ribeirão Preto bate na porta do banco pedindo prorrogação. Prorrogação não é pagamento, é inadimplência maquiada com carimbo oficial. E o mercado, que não é bobo embora finja ser, já cobra spread maior no CDS do banco.

Olha, a graça dessa história é que o lucro contábil que o banco vai reportar foi em boa parte financiado pela mesma Selic estratosférica que estrangula o produtor que deve ao banco. Quer dizer, a perna do tesouro do banco ganha rios de dinheiro carregando título público a juros de dois dígitos, enquanto a perna do crédito do banco lida com devedor rural que não consegue rolar dívida a esses mesmos juros. É o governo pagando o banco com uma mão e empurrando o cliente do banco para a falência com a outra, e no meio dessa engrenagem alguém precisa anunciar lucro recorde para sustentar o preço da ação. Engenharia financeira ou alquimia, dependendo da generosidade do observador.

Me diz uma coisa, quem vai pagar a conta quando a maquiagem cair. Porque ela cai sempre, é só questão de qual trimestre. Se as provisões para devedores duvidosos forem elevadas de verdade, o lucro afunda e a ação despenca. Se forem maquiadas, o problema migra para o exercício seguinte, maior e mais caro, e em algum momento o Tesouro precisará capitalizar o banco com dinheiro do contribuinte, ou seja, com o imposto de quem nunca pegou um centavo de crédito rural subsidiado, nunca plantou um pé de soja e nunca foi convidado para os jantares onde se decide quem é o produtor estratégico do mês. A privatização do lucro e a socialização do prejuízo continua sendo o esporte nacional mais lucrativo, e ninguém precisa explicar as regras porque todo mundo já as conhece de cor.

Há ainda o detalhe geopolítico que o pré-balanço não menciona mas pulsa por baixo de cada linha. O agro brasileiro virou peça de tabuleiro internacional, dependente de demanda chinesa, de logística que passa por canais sob pressão, de regulação climática europeia que muda na canetada, e de financiamento que depende de um banco cujo controlador é o mesmo governo que costuma trocar o ministro da Fazenda como quem troca de camisa. Confiar em previsibilidade nesse arranjo é confundir esperança com análise. O investidor sério não olha para o release oficial, olha para a inadimplência segmentada, para o nível de cobertura, para a evolução do crédito modalidade por modalidade, e principalmente olha para o que o banco não diz, porque o que ele não diz costuma valer mais que três páginas de gráficos coloridos no relatório de RI.

O BBAS3 é, no fim das contas, o retrato mais honesto que se pode ter do modelo econômico brasileiro contemporâneo, um colosso que parece sólido enquanto a impressora do Tesouro continua girando, e que revela suas fissuras estruturais no exato instante em que se exige dele desempenho de mercado de verdade. O balanço vai sair, os títulos vão festejar ou crucificar conforme a manchete, e na semana seguinte o ciclo recomeça. Mas quem entende de banco entende de incentivo, e os incentivos plantados nessa instituição há uma década estão dando o fruto que sempre dariam. Não existe milagre contábil que sobreviva à matemática da realidade, e a realidade, paciente como sempre, está apenas esperando a vez dela de falar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.