João Caldas, presidente do Democracia Cristão, apareceu para informar ao Brasil que a pré-candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência da República "já está posta". O verbo é revelador. Não brotou de uma demanda popular, não emergiu de movimento social algum, não nasceu de necessidade histórica, foi posta, como se põe a mesa antes do jantar. E o convidado, segundo o próprio dirigente, teria três meses para decidir se a comida estava boa o bastante para sentar.
Olha, esse arranjo merece um instante de atenção, porque ele explica mais sobre o sistema político brasileiro do que mil tratados de ciência política. Um partido sem voto, sem militância e sem programa identificável precisa de um rosto reconhecível para justificar o fundo partidário, o tempo de televisão e a estrutura burocrática que o Estado generosamente lhe entrega com dinheiro de quem nunca o elegeu. O rosto reconhecível, por sua vez, precisa de uma legenda qualquer para canalizar a vaidade tardia em forma de candidatura. É um casamento por conveniência financiado pelo contribuinte que sequer foi convidado para a cerimônia.
Joaquim Barbosa carrega o capital simbólico de ter presidido o julgamento do mensalão, e essa lembrança lhe rende, até hoje, um capital político flutuante que circula por todas as legendas em busca de uma sigla. Já passou pelo PSB, já flertou com outras, e agora aporta no DC, partido que ninguém saberia localizar numa pesquisa cega de espectro ideológico. A pergunta que ninguém faz é simples, o que defende, exatamente, esse pré-candidato? Defende mercado livre ou intervenção estatal? Corte de gastos ou expansão fiscal? Reforma do Judiciário ou manutenção do statu quo togado? Silêncio sepulcral. O que está posto é o nome, não o pensamento.
E aqui está a piada de fundo. O sistema eleitoral brasileiro, com seu fundo partidário bilionário, seu tempo de televisão distribuído por critérios cartoriais e suas barreiras de entrada para novas ideias, transformou a política em mercado de oportunidades para celebridades em busca de relevância e para legendas em busca de fôlego. Quem paga essa encenação? O sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar duas conduções, vê metade do salário evaporar em imposto embutido e ainda financia, sem saber, a aventura presidencial de gente que três meses atrás nem sabia em que partido ia se filiar.
O que se vê é o anúncio festivo do dirigente partidário, a manchete, o burburinho. O que não se vê é a fatura, o desvio de recursos públicos para campanhas que servem mais aos egos dos candidatos e às planilhas dos partidos do que ao eleitor que, na hora da urna, recebe um cardápio montado nos bastidores e é convencido de que aquilo é democracia em pleno funcionamento. Quer dizer, é democracia, sim, mas a versão de cartório, em que poucos escolhem os pratos e a multidão é informada de que comerá com gratidão.
Resta saber se Barbosa topará o papel ou se, ao fim dos três meses contratuais, devolverá o convite. De um jeito ou de outro, o episódio escancara a engrenagem. Não há projeto, não há ideia, não há causa, há legenda procurando rosto e rosto procurando legenda, num balé custeado por quem nunca foi à festa. Enquanto a imprensa tratar isso como notícia política e não como notícia policial sobre uso de dinheiro alheio, o teatro continuará em cartaz, e o ingresso continuará compulsório.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.