Cento e oito por cento. O número é redondo, bonito, daqueles que rendem manchete em portal de investimento e arrancam sorriso de gestor de fundo small cap. A Precision Optics, fabricante de sistemas ópticos de precisão para aplicações médicas e de defesa, dobrou a receita do terceiro trimestre fiscal de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O mercado celebrou, o papel reagiu, e a imprensa especializada repetiu o release como quem lê boletim meteorológico. Ninguém parou para fazer a pergunta que importa: de onde, exatamente, vem essa receita?

Quem acompanha o setor sabe que óptica de precisão não é mercado de varejo. Não é o consumidor americano comum que acordou em 2026 querendo comprar endoscópio miniaturizado ou sistema de imageamento para drone militar. Esse tipo de receita tem um nome, dois sobrenomes e um CNPJ, e quase sempre ele termina com a sigla de alguma agência federal ou de algum integrador do complexo industrial-militar. Quando uma empresa desse porte dobra em doze meses, raramente é porque conquistou o coração do público. É porque conquistou o orçamento do Tesouro.

E aqui mora o truque que ninguém quer comentar. O capitalismo de fachada produz esses heróis em série. Você lê a manchete, vê o gráfico subindo, imagina que está diante de Schumpeteriana destruição criativa, de inovação genuína vencendo no mercado livre. Na maioria dos casos, está diante de algo muito mais prosaico: uma empresa que descobriu o atalho de transformar contrato governamental em receita recorrente, e receita recorrente em valuation. O risco empresarial foi terceirizado para o contribuinte, e o lucro foi privatizado para o acionista. É o arranjo mais antigo do mundo, só que com PowerPoint e relatório trimestral.

Olha, eu não estou dizendo que a Precision Optics não faça produto excelente. Provavelmente faz. O problema não é a empresa, é o sistema que premia esse tipo de crescimento como se fosse mérito de mercado. Quando o governo americano expande gasto militar, gasto em saúde pública, gasto em pesquisa, a contrapartida visível é o jornal noticiando "empresa de tecnologia óptica cresce 108%". A contrapartida invisível é o pequeno empresário do Ohio que paga imposto a mais para sustentar o jantar do lobista em Washington, e a inflação que corrói o salário do trabalhador da Pensilvânia porque o Federal Reserve precisa monetizar parte dessa farra. Aquilo que se vê é o gráfico verde. Aquilo que não se vê é o bolso do americano comum esvaziando ano após ano.

Me diz uma coisa: quantas dessas empresas de "alto crescimento" sobreviveriam seis meses se o contrato federal fosse cortado? Esse é o teste de fogo que ninguém quer aplicar. Numa economia genuinamente livre, o crescimento de 108% seria sinal inequívoco de que a empresa decifrou uma demanda real, atendeu um cliente real e venceu uma concorrência real. Numa economia capturada, é sinal de que o departamento de relações governamentais trabalhou bem no último ciclo orçamentário. A diferença entre as duas situações não aparece no balanço, mas define a saúde de toda uma nação no longo prazo.

A grande mentira dos nossos tempos é vender contrato público como conquista privada. Vender absorção orçamentária como pujança empresarial. Vender o ciclo de gasto federal como milagre econômico. Cento e oito por cento de crescimento é um número belíssimo até você lembrar que cada ponto percentual desses tem como contrapartida um cidadão pagando, sem saber, a festa de alguém que ele jamais conhecerá. E enquanto continuarmos confundindo extração com produção, vamos seguir aplaudindo a própria pilhagem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.