O Bitcoin amanheceu na mesma faixa em que dormiu, e isso, para a indústria do pânico diário, é uma tragédia editorial. Holders firmes, volume baixo, feriado no calendário, e pronto, o ativo se recusa a oferecer o espetáculo que os comentaristas precisam para justificar a coluna. O fato concreto é singelo e devastador para a narrativa estatista: existe uma reserva de valor que não pede licença ao Banco Central para se comportar como bem entende, e hoje ela entendeu de descansar.
Repare na inversão silenciosa. O real, esse papel emitido por gente que jura de pés juntos defender seu poder de compra, perde valor todo santo dia mesmo quando a manchete diz que está tudo sob controle. O Bitcoin, esse troço que os palpiteiros da imprensa econômica chamam de bolha desde 2013, está estável num feriado porque ninguém precisa vender. Quem é a bolha, afinal? O ativo que sobrevive treze anos a artigos de obituário, ou a moeda que precisa de um comitê reunido oito vezes por ano para decidir quanto vai roubar do seu salário em juros e inflação?
O segredo da tal "estabilidade com suporte firme de holders" é o que ninguém quer escrever em letras grandes: gente cansada do confisco silencioso descobriu que pode segurar valor fora do alcance do impressor. Não há mistério técnico aqui, há mistério moral. Cada brasileiro que tira parte da poupança do circuito bancário tradicional está votando com a carteira contra um arranjo em que economiza ele e gasta o governo. E como todo voto que incomoda, esse vem sendo tratado pela autoridade monetária com a mesma gentileza com que o coronel tratava o eleitor recalcitrante.
Siga o dinheiro e a peça se monta sozinha. Quem precisa que o Bitcoin oscile violentamente? A corretora que vive de spread, o influenciador alavancado que precisa de tese nova toda semana, o regulador que sonha em justificar mais um pacote de "proteção ao investidor" que, traduzido, significa mais um pedágio para acessar seu próprio dinheiro. Quem se beneficia de um Bitcoin entediante e firme? O sujeito comum, aquele que comprou, guardou, dormiu, acordou e continua dono do que era seu. O tédio do detentor é o desemprego do parasita.
É curioso como o vocabulário denuncia o vício. Diz-se "suporte de holders" como se fosse fenômeno meteorológico, quando o que existe é um fato de ação humana, milhões de indivíduos preferindo guardar a vender. Não há mão invisível esotérica, há decisão consciente de gente que estudou o histórico recente das moedas estatais e concluiu que confiar no governo brasileiro para preservar capital é a mesma coisa que pedir ao gato para tomar conta da sardinha. Estabilidade não é mágica, é desconfiança organizada.
O que esse feriado revela, no fim, é que o mercado já fez a escolha que a política finge não ter percebido. Existe uma fração crescente da população que aprendeu, sem manual e sem subsídio educacional, a separar dinheiro de promessa de político. Enquanto a manchete chora a falta de emoção, o detentor sorri em silêncio. Bitcoin parado é o som do roubo monetário batendo na parede.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.