Um contêiner refrigerado, em fevereiro, custava US$ 2.800 para levar carne brasileira ao Oriente Médio. Em março, o mesmo contêiner chegou a US$ 7.000. Não aconteceu nada com a carne. Não aconteceu nada com o porto, com o navio, com o frio necessário para conservar a proteína. Aconteceu uma guerra. E guerras, como toda ação estatal, têm uma característica inconfundível: quem decide raramente é quem paga.
O Estreito de Ormuz é, para o comércio global, o que uma faca é para um carniceiro: quem o controla, controla o fluxo. Cerca de 20% de todo o petróleo mundial passa por aquele corredor de 33 quilômetros de largura, e junto com o petróleo passam contêineres, grãos, proteína animal e tudo mais que o mundo civilizado comercializa sem pedir licença a nenhum general. Quando o Irã efetivamente fechou aquele canal, as armadoras fizeram o que qualquer agente racional faz diante de risco real: cobriram o custo e repassaram o preço. A Maersk suspendeu novos embarques de contêineres refrigerados para toda a região. A CMA CGM criou um "prêmio emergencial de conflito" de US$ 4.000 por contêiner. A Hapag-Lloyd adicionou US$ 3.000 de sobretaxa de risco de guerra. E o frigorista brasileiro acordou com uma fatura que não existia dois meses antes.
O Brasil é o maior exportador de alimentos halal do mundo, o que, em termos práticos, significa que o agronegócio nacional está estruturalmente atrelado a mercados que ficam exatamente no centro da turbulência. O Oriente Médio absorve entre 10% e 15% das exportações de carne bovina brasileira e 24% das exportações de frango. Para algumas empresas específicas, 30% a 40% de tudo que exportam passa logisticamente pela região, não apenas como destino final, mas como rota de acesso a outros mercados asiáticos. Isso significa que uma guerra entre Washington e Teerã, a milhares de quilômetros de Mato Grosso, reconfigurou a planilha financeira de frigoríficos que nunca pronunciaram a palavra "nuclear" na vida.
Existe uma ironia sinistra em chamar a sobretaxa de "taxa de guerra". O Brasil já tem taxa de importação, taxa de exportação, contribuição social sobre o faturamento, imposto sobre circulação de mercadorias, e uma lista de tributos que tornaria qualquer teórico do livre comércio do século XIX engolir em seco. E agora há uma taxa de guerra, cobrada por armadoras privadas para compensar o risco criado por decisões de governos que não foram eleitos por nenhum produtor rural do Mato Grosso do Sul. A diferença entre esta e as demais é que pelo menos esta aqui foi criada por quem de fato assume o risco: as armadoras cobram porque podem perder navios. O Estado cobra porque pode cobrar.
O que aparece no noticiário é o número do contêiner. O que não aparece é a cadeia inteira de consequências que esse número vai desencadear: o frigorista que renegocia contratos sob pressão, o pecuarista que vende abaixo do esperado porque a demanda externa encolheu, o trabalhador da linha de abate cujo emprego depende da margem que sumiu, e o consumidor brasileiro que vai descobrir, daqui a alguns meses, que o bife no supermercado ficou mais caro porque a carne que iria para o Golfo ficou para o mercado interno, pressionando preços de baixo para cima. Essa cadeia invisível é o verdadeiro custo da guerra, e ela não aparece em nenhuma coletiva de imprensa do Pentágono, em nenhum comunicado de embaixada, em nenhum discurso presidencial. Aparece na conta do açougue.
O cessar-fogo condicional recentemente anunciado aliviou parte da pressão imediata. O Estreito voltou a permitir passagem. Os fretes vão recuar. Mas o precedente ficou gravado: uma canetada em Teerã ou em Washington pode dobrar o custo logístico do agronegócio brasileiro em questão de semanas, sem aviso, sem compensação, sem culpado que pague a diferença. A vulnerabilidade não é do governo. É dos produtores, das cadeias de abastecimento, dos trabalhadores, dos consumidores. O poder de fechar o Estreito pertence a estados. O prejuízo de fechá-lo pertence a todos os outros.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.