O Estreito de Hormuz tem quarenta quilômetros em seu ponto mais estreito. Por ele passa, todo dia, algo em torno de vinte por cento de todo o petróleo que o mundo consome. Não é uma rota comercial qualquer, é uma artéria, e quando uma artéria entope, o corpo inteiro sente. O barril de petróleo WTI subiu oito por cento em um dia e rompeu novamente a barreira dos cem dólares, depois de meses oscilando naquele limiar. O Brent ultrapassou cento e três dólares. Isso não é choque de oferta. É uma decisão política tomada por um presidente que se apresentou ao mundo como o homem que iria parar as guerras eternas do Oriente Médio.

Aqui mora o primeiro escândalo. O Irã já vinha bloqueando o Estreito desde fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel iniciaram a campanha aérea contra o regime persa. Ou seja: o corredor já estava parcialmente fechado, a crise já existia, e o mercado já havia incorporado parte desse risco nos preços. O que Trump fez neste domingo não foi responder a uma agressão nova. Foi escalar um conflito que já estava em curso, depois de negociações em Islamabad que naufragaram porque Teerã se recusou a abandonar o programa nuclear. Resultado: a Marinha americana vai agora interceptar qualquer navio que tente entrar ou sair do Estreito. Um bloqueio sobre um bloqueio. A crise sobre a crise.

Quem paga a conta? A pergunta mais honesta de qualquer análise econômica é sempre esta. O consumidor americano que abastece o carro vai pagar mais. O motorista brasileiro, cujo país importa derivados indexados ao mercado internacional, vai pagar mais. O agricultor argentino, o operário polonês, o entregador indonésio, todos vão pagar mais, porque o petróleo não é apenas combustível: é a matéria-prima da logística global, dos fertilizantes, dos plásticos, de boa parte da cadeia industrial do planeta. O custo invisível desta decisão se distribui por seis bilhões de pessoas que não votaram em ninguém nesta equação. E quem recebe? Os produtores de shale americano, que com o barril a cem dólares voltam a ser lucrativos em campos que estavam marginais. As empresas de exportação de GNL dos Estados Unidos, que se tornam a alternativa óbvia para a Europa e a Ásia. A indústria de defesa, que já sabe que contratos de reposição de material naval custam dezenas de bilhões. Siga o dinheiro até o fim e você encontrará os beneficiários de sempre.

A memória histórica que ninguém quer evocar agora é a de 1973. Quando os países produtores árabes embargaram o Ocidente em represália ao apoio americano a Israel, o barril quadruplicou de preço em meses. O que veio depois foi uma década de estagnação com inflação, uma combinação que os manuais diziam ser impossível e que o mundo viveu na prática. Governos de democracias liberais responderam com controle de preços, racionamento de combustível, restrições de circulação aos domingos, tabelamento de salários, qualquer coisa para esconder que a conta havia chegado e precisava ser paga. A intervenção sobre a intervenção, o remédio que gera a doença que exige mais remédio. Há algo de déjà vu perturbador na geometria desta crise.

O paradoxo político merece atenção. O homem que construiu toda a sua retórica sobre desregulamentação, sobre deixar o mercado respirar, sobre reduzir o papel do Estado na vida econômica, acaba de exercer a maior interferência estatal possível num mercado: fechou fisicamente a rota por onde ele passa. Não existe tabelamento de preços, não existe imposto, não existe regulação que cause efeito tão imediato e tão brutal quanto bloquear a passagem física de um produto. Quando um governo faz isso, não está "sinalizando ao mercado". Está substituindo o mercado pela força naval. A diferença entre isso e o controle de preços de Díaz Ordaz ou o racionamento de combustível de Nixon é apenas estética.

O que vem a seguir depende de quanto tempo o bloqueio dura, de como Rússia e China respondem a uma agressão que afeta diretamente o abastecimento energético de países do eixo que eles lideram, e de se os mercados vão precificar uma guerra longa ou uma resolução rápida. O que não depende de tempo nenhum é a lição que já está posta: não existe "livre mercado" onde existe força militar suficiente para fechar uma rota. O preço do petróleo hoje não reflete oferta e demanda. Reflete a decisão de um homem numa sala. E esse é exatamente o tipo de preço que ninguém no mundo pode se planejar para pagar.

Com informações do Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.