Vinte por cento do petróleo que move o planeta passa por um corredor de água de 33 quilômetros de largura. Isso não é uma vulnerabilidade nova, não é uma surpresa geopolítica, não é uma falha de inteligência. É um fato conhecido há cinquenta anos, documentado em cada manual de estratégia naval, mencionado em cada briefing presidencial desde Nixon. E mesmo assim, toda a engenharia diplomática do Ocidente, com seus tratados, suas sanções, suas "linhas vermelhas" e seus mediadores paquistaneses, foi incapaz de resolver o que qualquer pessoa com bom senso identificaria como um conflito de interesses em que nenhuma das partes tem incentivo real para ceder. Trump quer o desarmamento nuclear iraniano. O Irã quer a sobrevivência do regime. Nenhum dos dois vai conseguir o que quer pela mesa. A diferença é que os dois vão tentar conseguir pelo Estreito, e quem paga por essa disputa é o caminhoneiro de São Paulo, o agricultor do Paraná e o aposentado do Rio que vai ver sua cesta básica encarecida nos próximos sessenta dias.

Siga o dinheiro, porque ele nunca mente. Enquanto o barril sobe 8% num único pregão, há um grupo muito específico de pessoas que não está lamentando: as produtoras de petróleo de xisto americanas, que voltaram a ser economicamente viáveis acima dos US$ 80; os exportadores do Golfo Pérsico que não passam pelo Ormuz; a indústria de defesa americana, que sabe que bloqueio naval não se faz com palavras no Truth Social, e sim com porta-aviões, contratos de manutenção e munição. A guerra, qualquer guerra, tem patrocinadores. E os patrocinadores raramente aparecem nos comunicados oficiais. O que aparece nos comunicados é a narrativa das "ambições nucleares iranianas", que é real, documentada e legítima como preocupação. Mas preocupações legítimas podem ser instrumentalizadas por interesses que nada têm de legítimos, e confundir as duas coisas é exatamente o que a retórica oficial espera que você faça.

O custo visível é o barril a US$ 104. O custo invisível é mais longo e mais caro. Quando o petróleo sobe 8% num dia, o frete sobe. Quando o frete sobe, o custo do fertilizante sobe. Quando o custo do fertilizante sobe, o custo da soja sobe. Quando o custo da soja sobe, o custo do frango sobe. Quando o custo do frango sobe, a família brasileira com renda de dois salários mínimos descobre que sua margem de manobra no orçamento doméstico, que já era zero, agora é negativa. Nenhum analista de banco vai colocar isso no relatório da semana. O relatório vai falar em "pressão inflacionária transitória" e "ajuste de risco geopolítico no portfólio". A família vai chamar do nome correto: fome no fim do mês. O problema com os economistas de banco é que eles não erram no diagnóstico, erram no vocabulário, e o vocabulário errado esconde quem é o culpado.

Existe uma tradição longa de impérios que resolvem suas crises internas exportando conflito para regiões que não têm força suficiente para recusar o papel de palco. A Pérsia foi palco durante o século XX de interferências britânicas, americanas e soviéticas que moldaram suas instituições, seu ressentimento e sua teocracia atual. Quem quiser entender o aiatolá, precisa entender o Xá. Quem quiser entender o Xá, precisa entender o golpe de 1953, financiado pela CIA e pelos interesses petrolíferos britânicos. O ódio que Teerã nutre por Washington não caiu do céu por decreto divino. Foi cultivado, passo a passo, intervenção por intervenção, durante setenta anos. Não é justificativa para uma bomba nuclear. É explicação para por que as negociações de 20 horas em Islamabad fracassaram em meia página de comunicado. Nenhuma das partes confia na outra porque nenhuma das partes nunca deu à outra razão objetiva para confiar.

O Brasil, como de costume, é o passageiro de ônibus que não dirigiu, não escolheu a rota e vai pagar junto quando o ônibus bater. Nossa dependência de energia importada, nossa indústria que roda com derivados do petróleo, nossa agropecuária que consume diesel e fertilizante nitrogenado, tudo isso torna o país reféns de disputas que ocorrem a 15 mil quilômetros de distância, em estreitos que nenhum brasileiro jamais viu. E o governo brasileiro, qualquer governo, vai aparecer nos próximos dias com alguma medida de "proteção ao consumidor" que vai custar caro ao contribuinte sem resolver nada. Vai propor redução temporária de imposto sobre combustível, ou tabelamento de preço de frete, ou "diálogo com as distribuidoras". Vai criar um custo invisível para resolver um custo visível. A conta não some. Ela só muda de nome no orçamento.

O Estreito de Ormuz é 33 quilômetros de água. A civilização industrial moderna passa por ali como sangue passa por uma artéria. Quando dois estados decidem disputar o controle dessa artéria, com a razão fracionada entre os dois e os interesses privados de terceiros empurrando o conflito, o resultado é exatamente o que você está vendo no placar: petróleo a US$ 104, gás de aviação a mais 10%, e o mundo segurando a respiração esperando que dois homens com botões nucleares cheguem a um acordo que nem eles mesmos acreditam que o outro vai cumprir. O preço do petróleo não subiu porque o mercado enlouqueceu. O preço subiu porque dois governos falharam, e quando governos falham, o mercado apresenta a conta com precisão matemática implacável.

Com informações do Valor Econômico, NBC News e Axios. A análise e opinião são do O Algoz.