Eis o fato, cru como precisa ser. Uma ferramenta estrangeira de cálculo de preço-justo, vendida por mensalidade a quem quer pagar, sinalizou que a ação da Azul estava cara muito antes do papel desabar 39%. Não foi profecia, não foi sorte, não foi insight de guru. Foi aritmética aplicada a balanço público, fluxo de caixa descontado, comparáveis setoriais e dívida em dólar de uma companhia que fatura em real. Qualquer pessoa com calculadora financeira e duas horas livres chegaria à mesma conclusão. O detalhe constrangedor é que ninguém da turma do café com o presidente do BNDES chegou.

Me diz uma coisa, por que precisamos de uma plataforma americana para descobrir o que está escrito em português nos próprios relatórios da empresa? A resposta é desconfortável e por isso quase nunca dita. O mercado brasileiro de análise é capturado. Casas de research vendem relatório para corretora, corretora vende ação para cliente, banco subscreve emissão da mesma empresa que o analista cobre, e no fim da cadeia o investidor pessoa física recebe recomendação de compra de um papel que está sendo descarregado pelos institucionais que pagaram para ler o relatório antes dele. Isso não é teoria da conspiração, é o desenho do negócio.

Some a isso o detalhe que ninguém quer encarar de frente. A Azul foi tratada por anos como ativo estratégico nacional, com socorro do BNDES, renegociação de leasing com benefício fiscal indireto, postergação de tributos, e aquela aura de que companhia aérea brasileira não pode quebrar porque "é importante para a conectividade do país". Tradução honesta, prejuízo privado virou risco socializado, e enquanto o contribuinte garantia o chão, o papel era empurrado para o varejo como oportunidade. Quando a aritmética cobrou a conta, quem ficou segurando o mico foi quem confiou na recomendação do gerente, não quem desenhou o resgate em Brasília.

A lição que ninguém vai imprimir em manchete é simples. Preço não mente, balanço não negocia, e dívida em moeda forte de empresa que recebe em moeda fraca é bomba de efeito retardado, sempre foi, sempre será. O que mente é a narrativa construída em torno do ativo, o relatório complacente, a entrevista do CEO no jornal das oito, a foto do ministro inaugurando rota nova. Tudo isso é fumaça. A planilha é o fogo. E quem aprende a ler planilha sem precisar de intérprete oficial descobre que o emperador anda nu há bastante tempo.

Há ainda o aspecto cultural, que talvez seja o mais grave. O investidor brasileiro foi educado a desconfiar do estrangeiro e confiar no nacional, quando na prática a relação deveria ser inversa em matéria de análise financeira. Lá fora, a ferramenta cobra mensalidade e entrega cálculo frio porque não tem skin na transação. Aqui, o analista local frequentemente tem skin demais, sócio na corretora, parente no banco, convite para o evento da companhia coberta. O conflito de interesse é estrutural, e o mercado fingiu por décadas que isso não importava. Importa, e o preço do fingimento aparece quando uma ação despenca 39% surpreendendo todo mundo, menos quem pagou trinta dólares por mês para ouvir uma máquina dizer o óbvio.

No fim, a moral da história é desagradável para os dois lados do balcão. Quem comprou Azul confiando em recomendação patrocinada perdeu dinheiro e merece a lição. Quem vendeu a recomendação sabendo o que sabia ganhou comissão e segue trabalhando, porque no Brasil quase nunca há consequência para quem entrega análise de encomenda. Enquanto isso, uma ferramenta gringa segue assinada por uma minoria silenciosa que aprendeu a ler número sem precisar de tradutor. O resto continua acreditando em conto de fadas com gravata.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.