Estranho mercado este, em que a expectativa de paz faz o ouro subir. Pela lógica que ensinam nas faculdades de economia, anúncio de distensão geopolítica deveria empurrar o capital para ativos de risco, ações, títulos, qualquer coisa que renda mais do que um metal inerte guardado num cofre suíço. Mas o ouro sobe. E sobe forte. Quer dizer, o mercado está dizendo, com a clareza dos números que não mentem, que não acredita em nenhuma palavra do que sai da boca de Washington ou de Teerã. A paz anunciada é apenas o próximo capítulo da mesma novela, e o investidor sério já comprou o ingresso da próxima crise.

Olha, é preciso entender o que está realmente em jogo aqui. Quando bancos centrais do mundo inteiro, especialmente os que não estão alinhados ao eixo do dólar, vêm comprando ouro em quantidades históricas há três anos seguidos, isso não é diversificação de portfólio. É fuga. É a confissão silenciosa de que o sistema monetário construído sobre a confiança no Tesouro americano está rachando pelas costuras. O acordo com o Irã, se sair, libera petróleo no mercado, alivia preços, dá fôlego para a inflação respirar. E ainda assim o ouro sobe. Por quê? Porque o investidor sabe que cada dólar de alívio fiscal hoje é mais um dólar de impressora amanhã.

Siga o dinheiro e a paisagem fica nítida. A dívida americana ultrapassou 36 trilhões. Os juros da dívida já consomem mais do que o orçamento militar. O Federal Reserve está prensado entre cortar juros e alimentar inflação, ou manter juros e quebrar o Tesouro. Nesse cenário, qualquer notícia que sugira menos tensão no Oriente Médio é tratada como pretexto para afrouxar a política monetária, e afrouxar política monetária, em português claro, significa diluir o poder de compra de quem poupa para premiar quem se endividou. O ouro não está subindo apesar da paz; está subindo por causa do que a paz permite que os bancos centrais façam em seguida.

E há a questão que ninguém quer encarar de frente. Acordos de paz negociados sob pressão econômica nunca duram. Versalhes durou vinte anos. Camp David sobreviveu, mas à custa de subsídios bilionários eternos. Os acordos abraâmicos, propagandeados como diplomacia revolucionária, evaporaram no primeiro tiro disparado em Gaza. Apostar que Washington e Teerã, dois regimes que se odeiam por razões teológicas, geopolíticas e econômicas simultaneamente, chegaram a um entendimento duradouro é o tipo de otimismo que só se vê em manchete de jornal e em coquetel de embaixada. O ouro sabe disso. O ouro sempre soube.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que um governo, qualquer governo, resolveu uma crise sem criar duas no processo? O acordo de paz, se vingar, será celebrado nas capitais, fotografado nos jardins, brindado nos hotéis cinco estrelas. E enquanto os políticos sorriem para as câmeras, o capital inteligente vai continuar fazendo o que sempre fez quando ouve promessa solene de homem público: vai correr para o metal que não precisa de juramento, não exige confiança, não depende de eleição e atravessou impérios, califados, repúblicas e ditaduras sem perder uma grama do seu valor. Ouro não fala. Ouro pesa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.