O ouro avança de novo, mansamente, quase de mansinho, como quem já sabe o caminho de cor. A justificativa do dia é dupla: as conversas com o Irã sobre o programa nuclear e as reuniões dos bancos centrais que vão, mais uma vez, debater quanto custa o dinheiro dos outros. A imprensa econômica trata isso como notícia. Não é. Notícia seria o ouro cair num cenário desses. O movimento de hoje é apenas a confirmação rotineira de uma desconfiança que se acumula há décadas: as pessoas que acumulam capital de verdade não acreditam mais no papel pintado que os governos chamam de moeda.
Repare na coreografia. Um comitê de homens de terno se reúne numa sala fechada, em alguma capital, e decide arbitrariamente o preço fundamental de toda a economia, a taxa de juros, que é nada mais nada menos do que o preço do tempo. Nenhum padeiro, nenhum industrial, nenhum agricultor, nenhuma dona de casa foi consultado. O conhecimento que está disperso entre bilhões de pessoas trocando bens e serviços é solenemente ignorado em favor do palpite de um cartel de doutores. E o mercado, que não é burro, faz a única coisa racional diante desse arranjo: compra aquilo que esses doutores não conseguem fabricar com um clique.
Vale seguir o dinheiro, como sempre. Quem compra ouro em alta hoje? Bancos centrais de países que perceberam, depois de assistirem ao congelamento das reservas russas, que dólar guardado em Nova York é dólar com coleira. China acumulando, Índia acumulando, Turquia acumulando, Polônia acumulando. Essa gente não está lendo análise técnica. Está lendo geopolítica e percebendo que a moeda de reserva global virou uma arma, e armas apontadas para os outros tendem, mais cedo ou mais tarde, a apontar para todo mundo. O ouro sobe porque os Estados que mais entendem de poder estão votando com os pés.
E o Irã? O Irã é o pretexto do dia, não a causa. A causa é estrutural. Toda vez que um governo expande sua base monetária para financiar gastança, déficit, programas de bondade com o dinheiro alheio e aventuras militares disfarçadas de diplomacia, ele está discretamente confiscando poder de compra de quem poupa em moeda corrente. Não chamam de imposto, mas é. Não chamam de calote, mas é. Chamam de política monetária acomodatícia, expansão balanceada, instrumento contracíclico, o glossário é vasto e a função é uma só: empurrar a conta para o futuro e para os incautos. O ouro é simplesmente o termômetro que mede a febre dessa farsa.
O detalhe delicioso é que ninguém precisa entender escola econômica nenhuma para captar o que está acontecendo. O instinto da pessoa comum, daquela que o intelectual urbano despreza, sempre soube. Sua avó guardava aliança no fundo da gaveta porque desconfiava do governo, e ela estava certa antes de qualquer doutor de banco central nascer. A sabedoria acumulada de séculos dizia que ouro é ouro e papel é papel, e que confundir os dois é truque de ilusionista. Estamos redescobrindo, com juros, o que nossos bisavós sabiam de berço.
Enquanto o teatro continua, com declarações sobre Teerã, comunicados cuidadosamente redigidos sobre a próxima decisão de juros e analistas explicando o óbvio com vocabulário rebuscado, o metal segue subindo. Não porque alguém o esteja inflando, mas porque o que está do outro lado da balança, a moeda fiduciária, está sendo diluída diariamente por gente que jura, de mão no peito, que sabe o que está fazendo. Spoiler: não sabe. Nunca soube. E o ouro, paciente como sempre, continua sendo o juiz silencioso que dá o veredicto sem precisar abrir a boca.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.