O petróleo recuou alguns centavos depois que Trump declarou, com aquela naturalidade de quem oferece carona, que os Estados Unidos ajudarão navios a atravessar o Estreito de Ormuz. O mercado respirou, os traders comemoraram, a manchete ficou bonita. Quer dizer, ficou bonita pra quem só lê manchete. Quem lê o que está embaixo da manchete percebe que a Sétima Frota não funciona com boa vontade nem com aplausos do Wall Street Journal, funciona com aproximadamente oitocentos bilhões de dólares anuais retirados, ano após ano, do bolso do contribuinte americano, que por sua vez transfere o custo para o resto do mundo via inflação do dólar e via preços de commodities cotadas justamente em dólar. O barril caiu alguns centavos, é verdade. Mas alguém pagou esses centavos antes de eles caírem, e esse alguém não foi a Casa Branca.
Olha, é fascinante a velocidade com que se naturalizou a ideia de que a marinha de um país do hemisfério ocidental tem obrigação metafísica de patrulhar um estreito do outro lado do planeta para que petroleiros sauditas, kuwaitianos e emiradenses possam exportar tranquilamente para refinarias chinesas, indianas e europeias. A operação é apresentada como serviço público global, como se Washington fosse uma espécie de ONG armada até os dentes. Não é. É subsídio em forma de canhão. O petróleo do Golfo chega mais barato ao consumidor final exatamente porque o custo da segurança da rota foi terceirizado para o pagador de impostos do Texas, da Flórida e, por extensão monetária, para o cidadão de Cuiabá que abastece o Corolla de manhã.
Me diz uma coisa: se o Estreito de Ormuz fosse mesmo um problema de mercado, quem teria mais incentivo econômico para resolvê-lo? Os donos da carga, naturalmente. As seguradoras de Londres, os armadores gregos, as petroleiras estatais do próprio Golfo. Existe uma indústria privada de segurança marítima sofisticadíssima, existem consórcios de escolta, existe tecnologia de ponta para proteção de comboios. O preço do frete refletiria o risco, o risco refletiria a realidade, e a realidade ajustaria a oferta. É assim que sistemas vivos funcionam. Mas como o Tio Sam aparece de graça, ninguém precisa pagar pelo serviço, e o sinal de preço, aquela bússola que orientaria as decisões de bilhões de pessoas, é falsificado na origem. O que se vê é o petróleo barato. O que não se vê é o império quebrado financiando a barateza.
Há ainda o detalhe deliciosamente ignorado de que a tensão no Estreito não caiu do céu. Ela é, em grande medida, subproduto direto de décadas de intervenção americana na região, sanção atrás de sanção, embargo atrás de embargo, aliança atrás de aliança, todas justificadas com a mesma retórica de estabilidade que agora exige uma nova rodada de gastos militares para conter a instabilidade gerada pela rodada anterior. É a espiral clássica: cada intervenção produz a distorção que justificará a próxima intervenção, e o orçamento de defesa cresce na exata proporção em que a paz se afasta. Sai caro fingir que se está consertando o que se quebrou de propósito.
O mais constrangedor, contudo, é a leitura que circula nos terminais Bloomberg da vida, segundo a qual a queda de alguns centavos no barril representa "alívio nos mercados". Alívio é uma palavra interessante. Você sente alívio quando a dor passa, não quando descobre que o anestésico será cobrado em três parcelas dos seus netos. A precificação do petróleo hoje incorpora, embutida e invisível, a promessa implícita de que sempre haverá um porta-aviões patrulhando uma faixa de água a quinze mil quilômetros de Norfolk. No dia em que essa promessa começar a soar menos crível, o que cair não serão alguns centavos, será o andar de baixo do mercado inteiro.
Trump pode mandar a Sétima Frota, pode mandar a Quinta, pode mandar a Marinha do Paraguai se quiser. Não muda o teorema fundamental: proteção fornecida pelo Estado nunca é gratuita, é apenas faturada para alguém que não sabe que está pagando. E essa é a forma mais antiga, mais elegante e mais resiliente de tributação que a história conhece, porque o tributado, coitado, ainda agradece.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.