O preço do petróleo subiu, depois caiu, depois vai subir de novo, e a notícia trata isso como se fosse fenômeno meteorológico. Não é. Houve confronto entre forças americanas e iranianas no Estreito de Ormuz, aquele corredor estreito por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, e o mercado fez o que sempre faz quando dois governos resolvem brincar de empurrão num cano de gasolina alheio: precificou o medo. Recuou nas horas seguintes porque os tambores baixaram de volume, não porque algum problema foi resolvido. Quem confunde trégua tática com paz duradoura é o mesmo tipo de gente que confunde anestesia com cura.

Olha, é preciso entender o arranjo antes de chorar a conta. O preço do barril hoje não reflete escassez geológica, reflete prêmio de risco político. O óleo está lá embaixo da terra, em quantidades que dariam para décadas, mas o que define quanto você paga na bomba é a probabilidade percebida de que algum sargento iraniano resolva, numa sexta à noite, minar uma rota de navegação. Quer dizer, o brasileiro está pagando pedágio pela neurose alheia, e nenhum economista de televisão tem coragem de explicar isso assim, com todas as letras, porque dependeria de admitir que o sistema está montado para que governos fortes capturem o ganho da volatilidade enquanto consumidores fracos absorvem a perda.

E aqui entra o jogo invisível, aquele que ninguém comenta. Quem ganha com petróleo a cento e poucos? Não é o motorista de aplicativo, não é a dona de casa, não é o produtor rural que vê o frete subir antes da soja sair da fazenda. Ganha o complexo industrial-militar que vende mais drone, mais radar, mais fragata. Ganha o tesouro de quem produz e exporta, dos sauditas aos texanos do shale. Ganha o trader que comprou contrato futuro na sexta sabendo que algo aconteceria no fim de semana, porque informação privilegiada nesse mercado tem nome, sobrenome e helicóptero próprio. Siga o dinheiro até o fim e você descobre que cada míssil disparado em Ormuz é um cheque emitido contra o seu salário, num banco que você não autorizou a debitar.

Me diz uma coisa, em que momento o cidadão livre concordou em ter sua mobilidade indexada à temperatura do humor de um aiatolá e à agenda eleitoral de um presidente americano? Em momento nenhum. O contrato é tácito, imposto pela arquitetura do sistema monetário internacional, em que o petróleo é cotado em dólares emitidos sem lastro, dólares que se depreciam a cada nova rodada de gastança fiscal em Washington, fazendo com que o produtor exija mais dólares pelo mesmo barril, fazendo com que o brasileiro precise de mais reais pelo mesmo litro. A inflação que você sente no posto não nasceu na refinaria, nasceu na impressora.

O remédio que vão oferecer, é claro, é mais do mesmo veneno. Vão pedir intervenção da Petrobras na paridade, vão pedir subsídio ao diesel, vão pedir tabelamento, vão pedir CIDE zerada, vão pedir tudo o que mascara o problema sem resolvê-lo. Cada uma dessas medidas é uma janela quebrada que alguém vai aplaudir como geração de emprego, ignorando que o vidraceiro está lucrando à custa do padeiro que agora não tem como repor o forno. O que se vê é o preço estabilizado por decreto. O que não se vê é a fila de investimento que não vem, a refinaria que não se moderniza, o capital que migra para mercados onde o governo ao menos finge respeitar a aritmética.

A solução verdadeira é desconfortável e por isso ninguém quer ouvir: menos dependência de uma única matriz, menos moeda fiduciária servindo de termômetro de risco geopolítico, menos estatal monopolizando a cadeia, mais concorrência real, mais propriedade privada nas reservas, mais liberdade para o consumidor escolher como e de quem comprar energia. Enquanto isso não acontecer, todo confronto em Ormuz vai continuar funcionando como um imposto invisível cobrado em tempo real, sem voto, sem nota fiscal, sem direito de defesa. A bomba de combustível virou urna eletrônica, e você vota toda vez que abastece, num candidato que nunca aparece na cédula.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.