O barril sobe um por cento, o noticiário corre para chamar de "tensão", e o adulto na sala já sabe o que vem: Ormuz tossiu, o mundo gripou. Por aquele corredor de água passa algo como um quinto de todo o petróleo movimentado no planeta, e a cada vez que um drone cruza o Golfo ou um aiatolá levanta a voz, o preço se ajusta antes mesmo do tanque secar. Não é especulação maluca de mercado, é o sistema de preços fazendo aquilo que nenhum ministério consegue: comprimir, em um único número, a informação dispersa de milhões de agentes que nunca se falaram e jamais se falarão.

Quem acompanha a coisa sem fantasia entende que o petróleo não está caro porque algum trader acordou ganancioso. Está caro porque há risco real de interrupção em uma rota que a humanidade, depois de décadas de globalização barata, escolheu não ter substituto. A conta da fragilidade chega agora, em centavos por litro, e chegará amanhã em pontos de inflação. O resto é teatro. Cada vez que uma capital ocidental finge "negociar" com o regime persa, está pagando o sequestrador para soltar o refém que ele mesmo financiou.

No Brasil, a peça é ainda mais cômica. Temos uma estatal gigantesca, reservas de pré sal que dariam inveja a meio mundo, e mesmo assim importamos diesel, importamos gasolina, e tremos a cada solavanco em um estreito do outro lado do globo. Por quê? Porque décadas de política de preços feita no tapetão, refinaria parada por capricho ideológico, e investimento espantado por insegurança jurídica produziram exatamente o resultado que produziriam: dependência. Não existe almoço grátis, e o almoço da subsidiação populista de combustível, servido com tanto entusiasmo nos governos passados, está sendo cobrado agora, com juros, na forma de vulnerabilidade externa.

Vai vir o coro de sempre pedindo "intervenção", "tabelamento", "redução de tributos federais por canetada". Cada uma dessas medidas é uma versão diferente de quebrar o termômetro para fingir que a febre passou. Tabelar preço de combustível em um país que importa derivado é o atalho mais rápido para fila no posto, mercado paralelo e desabastecimento, coisa que a geração mais velha lembra muito bem dos anos setenta e oitenta. Quem está pedindo isso ou desconhece a história ou aposta que você desconheça.

O que se vê é o motorista reclamando da bomba. O que não se vê é a cadeia inteira, do frete ao supermercado, do agro à indústria, recalibrando margens, demitindo na ponta, repassando no preço. O imposto inflacionário que vem por trás de qualquer choque de energia é o mais cruel de todos, porque não passa pelo Congresso, não pede licença, não aparece no holerite. Ele simplesmente acontece, e os primeiros a sentir são exatamente aqueles em nome de quem o populista de plantão jura governar.

A lição que Ormuz oferece de graça, e que insistimos em não aprender, é simples: energia é questão de soberania, soberania é questão de propriedade segura e regra estável, e nenhuma das duas coisas se decreta em pronunciamento de cadeia nacional. Enquanto tratarmos petróleo como bandeira política e refino como inimigo de classe, vamos seguir reféns de um estreito que a maioria dos brasileiros não sabe localizar no mapa. O barril sobe um por cento hoje. Amanhã sobe cinco. E aí veremos quem estava nadando sem calção.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.