O contrato de moagem em Paris fechou em alta puxado por dois fatores que nada têm a ver com agricultura: a firmeza do trigo americano em Chicago e o rumor de que a China voltaria às compras massivas. Quer dizer, o agricultor francês não plantou melhor, o solo ucraniano não rendeu mais, o clima não mudou da noite para o dia. O que mudou foi a expectativa de alguns operadores em frente a telas, e isso bastou para que o pão amanhã custasse mais caro em Lyon, em Berlim e, por tabela, em São Paulo.
Olha, há uma lição antiga aqui que ninguém quer aprender. Quando os preços de uma commodity essencial dependem mais dos boatos sobre o que Pequim fará na próxima quinta-feira do que da safra real plantada em hectares reais, alguma coisa está profundamente torta no arranjo. Não é o mercado livre operando, é o mercado financeirizado operando, infestado por capital ocioso que precisa de algo para apostar depois que os bancos centrais ocidentais despejaram trilhões de moeda criada do nada na última década. O dinheiro fácil precisa pousar em algum lugar, e o estômago do consumidor europeu se tornou pista de pouso.
Me diz uma coisa: por que a China tem esse poder oracular sobre o trigo do mundo inteiro? Porque ela é o maior comprador, claro, mas também porque o regime de Pequim opera com a opacidade que só ditadura permite. Ninguém sabe quando vai comprar, quanto vai comprar, ou se as compras anunciadas existem de fato. Cada declaração vaga de uma agência estatal chinesa movimenta bilhões em contratos futuros do outro lado do planeta. É uma assimetria de poder que o livre comércio jamais deveria ter tolerado, e que tolera porque os governos ocidentais passaram trinta anos fingindo que comerciar com tirania centralizada era a mesma coisa que comerciar com democracias.
E enquanto isso, do lado de cá, o burocrata europeu segue legislando sobre o tamanho do pepino, a curvatura da banana, o teor de nitrogênio que o produtor pode usar, a quantidade de gado que cada fazenda pode ter para salvar o clima. Sufoca-se o produtor doméstico com regras kafkianas em nome da sustentabilidade, e depois reclama-se que a oferta interna não acompanha a demanda quando o preço sobe. É o ciclo clássico: o Estado destrói a capacidade produtiva com regulação, o preço dispara, e o mesmo Estado entra correndo com subsídio emergencial usando dinheiro do contribuinte para mitigar a crise que ele mesmo fabricou.
Há algo de quase cômico, se não fosse trágico, em ver economistas de banco explicarem doutamente que a alta do trigo se deve à "volatilidade do mercado global". Não é volatilidade, é dependência. Dependência de um regime hostil, dependência de uma moeda fiduciária inflacionada, dependência de uma cadeia logística que foi desmontada em nome da globalização e remontada em nome da segurança nacional, três vezes nos últimos cinco anos. Quem paga essa conta de instabilidade fabricada não é o trader de Genebra que ganha comissão na oscilação, é a dona de casa que vê o saco de farinha subir e não entende por quê.
A solução nunca virá de mais comitês, mais cúpulas em Davos, mais protocolos climáticos que tornam o cultivo um luxo. Virá de devolver ao produtor a liberdade de produzir, ao consumidor a possibilidade de escolher, e ao mercado a função que sempre teve antes de virar mesa de aposta: transmitir informação sobre escassez real, não sobre humor de oligarca asiático. Enquanto isso não acontece, o pão fica mais caro, o salário rende menos, e os mesmos sábios que orquestraram o desastre aparecem na televisão para nos explicar que a culpa é do clima.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.