Caiu tudo em Chicago. Soja, milho, trigo, o pregão inteiro virou ladeira porque o clima nos Estados Unidos resolveu colaborar com o ciclo agrícola americano, e as perspectivas de safra subiram o suficiente para empurrar os contratos futuros morro abaixo. É a coisa mais antiga do mundo acontecendo de novo, oferta sobe, preço cai, e ninguém precisou de comitê, de ministério, de mesa de crise, de coletiva com economista de gravata explicando o óbvio com palavras difíceis. Choveu, plantou, vai colher, ponto.

Mas observe o que acontece nos bastidores quando o preço cai por motivo natural. Some da imprensa o coro que mês passado gritava sobre "insegurança alimentar global", some o burocrata da ONU pedindo coordenação de estoques estratégicos, somem os think tanks que viviam propondo regulação de exportação para "garantir abastecimento". O preço resolve em três semanas o que eles queriam resolver em três décadas de mesa redonda. E resolve sem tomar um centavo de ninguém à força.

Há uma lição embutida aqui que o brasileiro precisa engolir antes que o próximo ciclo de pânico chegue. Toda vez que o grão sobe, aparece alguém propondo que o governo intervenha, taxe exportação, monte estoque regulador, controle preço no varejo, subsidie o consumidor final. E toda vez que o preço cai sozinho, esses mesmos sujeitos somem da televisão e ninguém lembra de cobrar que eles voltem para devolver os impostos que arrancaram quando a histeria estava no auge. O preço alto serve de pretexto para o confisco, o preço baixo passa em branco. Funciona assim há séculos.

Repare também na ironia do timing. Enquanto Chicago entrega a aula gratuita de como mercado funciona, o produtor brasileiro está sentado em cima de uma safra que vai chegar com preço internacional pressionado, custo de insumo nas alturas porque o real apanhou o ano inteiro, e uma carga tributária que faz o homem do campo trabalhar metade do ano para sustentar a estrutura de Brasília. O americano colhe e vende, o brasileiro colhe e divide com o leão antes de ver a primeira nota. E ainda chamam isso de competitividade.

O detalhe que ninguém quer dizer em voz alta é que essa volatilidade toda, que assusta o leigo e enriquece o especulador esperto, é exatamente o sinal de que o sistema está vivo. Preço que oscila é preço que carrega informação. Quando o governo congela, tabela, controla, o que ele faz é cortar o fio do telégrafo entre produtor e consumidor e depois reclamar que ninguém está se comunicando. A chuva caiu, o preço caiu, e o planejador descobriu mais uma vez que a natureza não consulta o Diário Oficial antes de molhar a lavoura.

Fica o registro para a próxima rodada de alarme. Quando voltarem a dizer que o mundo vai passar fome e que só uma agência multilateral com poder de polícia sobre commodities pode salvar a humanidade, lembre desta semana de junho em que choveu no Iowa e o problema deles evaporou junto com a tese. O mercado não precisa de salvador. Precisa que deixem ele em paz.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.