O presidente da Boyd Gaming, operadora de cassinos com tentáculos espalhados por Las Vegas e meia dúzia de estados americanos, vendeu oito milhões e quatrocentos e cinquenta mil dólares em ações da própria empresa. Não comprou. Vendeu. E aqui começa a parte interessante, aquela que o Investing.com noticia em tom protocolar e que ninguém na imprensa econômica brasileira tem o estômago de comentar com a honestidade devida. Quando o sujeito que assina os relatórios trimestrais, que conhece os números antes do mercado, que sabe quais alavancas serão puxadas no próximo semestre, decide trocar papel por dinheiro vivo em valor de oito dígitos, a pergunta óbvia é uma só. O que ele sabe que você não sabe?

A resposta convencional, ensaiada pelos departamentos de relações com investidores, é sempre a mesma cantilena. Diversificação patrimonial. Planejamento sucessório. Exercício de stock options dentro do plano 10b5-1 pré-agendado. Tudo muito técnico, tudo muito legal, tudo muito conveniente. E é justamente aí que mora o truque do capitalismo de compadrio moderno, aquele que opera no andar de cima enquanto convence o andar de baixo de que mercado é meritocracia pura. O executivo recebe ações como parte da remuneração, paga imposto reduzido sobre ganho de capital em vez de imposto cheio sobre salário, e ainda escolhe o momento da venda com informação privilegiada institucionalizada por regulamentação que ele mesmo ajudou a moldar via lobby setorial.

O setor de jogos de azar nos Estados Unidos vive um momento curioso. Receitas recordes em apostas esportivas, expansão do iGaming estado por estado, e ao mesmo tempo um consumidor americano endividado até a alma, com cartão de crédito estourado, poupança negativa e Federal Reserve indeciso entre cortar juros para salvar o sistema bancário ou manter a política para combater uma inflação que nunca foi de custos, sempre foi monetária, fabricada na impressora de Washington. Cassino vive de discricionário. Quando o operário americano para de jogar porque precisa escolher entre apostar cinquenta dólares ou pagar o aluguel, o gráfico da Boyd Gaming não vai para cima. E quem está no comando vê esse cenário antes de quem está na arquibancada.

Olha, isto não é acusação criminal. É observação de padrão. Os registros de insider trading nos formulários da SEC mostram, década após década, que executivos de companhias listadas vendem mais do que compram, e vendem com timing estatisticamente superior ao do investidor médio. Não porque sejam gênios da análise técnica, mas porque operam com informação assimétrica legalizada. O sistema foi construído assim, e quem reclama é tachado de invejoso ou conspiracionista. O que ninguém vê é que cada dólar realizado pelo executivo no topo é um dólar que sairá do bolso do fundo de pensão, do investidor pessoa física, da viúva que comprou a ação porque o canal de finanças disse que era papel sólido para o longo prazo.

O detalhe que escapa ao olhar distraído é o seguinte. Empresas de jogo são, em essência, máquinas de transferir riqueza do otimista crônico para o casino e seus acionistas. Quando o próprio acionista de controle decide que prefere dólar na conta a participação no negócio, ele está sinalizando algo que vai além da diversificação patrimonial. Está dizendo, em linguagem de balanço, que prefere liquidez agora a aposta no futuro da própria empresa. Se o capitão pula com colete salva-vidas, a tripulação que continua remando merece pelo menos saber que o capitão pulou. Quer dizer, a notícia foi publicada, está lá, e mesmo assim noventa e nove por cento dos investidores não vão ler, não vão entender, e vão continuar comprando o papel porque o gerente do banco recomendou.

O capitalismo genuíno, aquele que cria riqueza por troca voluntária e produção de valor real, sobrevive apesar destas distorções, não por causa delas. O que vemos no caso Boyd, e em centenas de casos idênticos por trimestre, é o subproduto de um arranjo regulatório que protege quem está dentro e ilude quem está fora. Não há crime. Há algo pior, há um desenho. E o desenho funciona porque a maioria das pessoas prefere acreditar que o jogo é limpo a aceitar que precisa estudar, desconfiar e proteger o próprio bolso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.