A manchete é tocante, quase comovente. Vinte e seis anos de casa, presidência da Emera Energy, aposentadoria com honras, sucessor anunciado, ações reagindo com a serenidade de quem sabe que nada de fundamental vai mudar. E é precisamente aí que mora a história que o press release não conta. Quando uma executiva sai de uma utility após mais de duas décadas e o mercado mal pisca, isso não é sinal de estabilidade saudável; é sinal de que o negócio em questão depende muito menos de quem o comanda do que do arranjo regulatório que o blinda. Trocaram a piloto, o avião continua no mesmo trilho, com a mesma rota, abastecido pelo mesmo consumidor cativo.

Olha, o setor elétrico norte-americano, e o canadense por tabela, é o exemplo de manual daquilo que se costumava chamar, com franqueza que hoje seria considerada deselegante, de capitalismo de compadrio. A empresa investe, a comissão reguladora aprova a tarifa, o consumidor paga, e o retorno sobre o capital é praticamente garantido por planilha. Risco empresarial, aquele que justifica lucro na teoria econômica decente, foi terceirizado para o pagador de conta de luz. O empreendedor schumpeteriano, aquele que arrisca tudo numa aposta sobre o futuro, virou peça de museu; no lugar dele, gestores de carreira que sobem degrau por degrau dentro de uma estrutura onde o pior que pode acontecer é o regulador demorar três meses a mais para aprovar o reajuste.

Me diz uma coisa: quantas indústrias do mundo real permitem a um executivo planejar vinte e seis anos de carreira na mesma cadeira sem que a concorrência o tenha pulverizado? Padarias quebram, bancos se fundem, varejistas desaparecem, montadoras pedem socorro, gigantes de tecnologia somem em uma década. A energia regulada, não. Ela atravessa governos, crises, pandemias, transições tecnológicas, e segue distribuindo dividendos com a regularidade de um relógio suíço. Não porque seus gestores sejam geniais, mas porque o sistema foi desenhado para que não precisem ser. Estabilidade é virtude quando vem da competência; quando vem do monopólio, é apenas a outra face da estagnação.

E aí entra a parte que ninguém escreve nas matérias bem-educadas. Toda vez que uma utility anuncia transição de comando com aquele tom solene de continuidade institucional, o que está sendo celebrado, no fundo, é a perenidade do arranjo, não o mérito dos seus protagonistas. A executiva que se aposenta cumpriu seu papel com competência, ninguém duvida; mas o palco onde ela atuou foi montado por décadas de lobby junto a comissões reguladoras, audiências públicas onde sempre comparecem os mesmos consultores, processos tarifários que o cidadão comum não tem como acompanhar, e uma narrativa pública segundo a qual energia é assunto técnico demais para ser discutido pelo povo. Conveniente, não?

O que se vê é a despedida elegante, o jantar de gala, a placa comemorativa. O que não se vê é a fatura mensal de milhões de famílias que financiaram, sem nunca terem sido consultadas, o conforto desse modelo. Cada centavo de retorno garantido sobre base de ativos regulados saiu do bolso de alguém que precisou cortar outra coisa do orçamento doméstico. Cada projeto aprovado com taxa de retorno cativa significou que o capital deixou de ir para um setor onde teria de competir de verdade, e foi para um setor onde só precisa cumprir formulários. A riqueza nacional, aquela que se mede pela produtividade real e pela capacidade de inovar, paga preço silencioso por essa engenharia.

A solução não é demonizar a executiva, que provavelmente é uma profissional dedicada, nem mesmo a empresa, que apenas joga o jogo cujas regras lhe foram entregues. A solução é olhar para as regras. Enquanto o setor energético continuar sendo um clube fechado onde o Estado garante a margem, o consumidor banca o risco e a opinião pública é convencida de que isso é normal, vamos seguir lendo manchetes sobre aposentadorias de presidentes que duraram um quarto de século, sem perceber que o verdadeiro veterano da história não é a pessoa, é o privilégio. Trocar quem ocupa a cadeira é trivial; aposentar a cadeira, isso sim seria notícia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.