Mark Jones, presidente da Goosehead Insurance, abriu a carteira, contou noventa e nove mil trezentos e setenta e cinco dólares e comprou ações da empresa que ele mesmo dirige. Não foi opção de compra com strike camarada, não foi pacote de remuneração disfarçado, não foi ação restrita que cai do céu corporativo. Foi dinheiro vivo do bolso pessoal indo para o mesmo barco que ele pilota. O mercado registra isso numa linha fria de formulário 4 da SEC e segue a vida, como se a coisa fosse trivial. Não é.
Olha, no léxico financeiro existe um termo para isso, skin in the game, pele em jogo. Foi inventado porque a regra geral do capitalismo contemporâneo é exatamente a oposta: executivos administrando capital alheio, com bônus garantidos quando dá certo e paraquedas dourado quando dá errado. O sujeito que arrisca o próprio patrimônio na decisão que toma vira, por inversão patológica, a exceção que merece manchete. Quer dizer, chegamos ao ponto em que o ato mais elementar do empreendedorismo, acreditar no próprio negócio com dinheiro próprio, é tratado como exotismo digno de comunicado regulatório.
E aqui vale seguir a trilha do dinheiro com atenção. Quando um CEO compra ações no mercado aberto, ele está sinalizando algo que nenhum relatório trimestral consegue dizer com a mesma força. Ele sabe coisas que o analista da corretora não sabe. Conhece o pipeline, os contratos em negociação, a saúde real do balanço, a moral da equipe. Se ele coloca cem mil dólares na mesa, é porque enxerga preço descontado em relação ao valor que conhece por dentro. Não é profecia, é informação assimétrica revelada por ação concreta. Caráter, afinal, se mede pelo que o sujeito faz quando ninguém está obrigando, e não pelo que ele declara em conference call.
Compare isso com o teatro que vai nas estatais brasileiras e em boa parte do mercado financeiro global. Presidente nomeado por padrinho político, conselho carimbador, executivo que nunca botou um centavo na empresa que comanda, distribuindo dividendos forçados para financiar gastança alheia, queimando caixa em aventuras de palanque. Quando dá errado, o prejuízo é socializado via tarifa, imposto ou inflação. Quando dá certo, o crédito é do governo de plantão. O contribuinte paga a conta dos dois lados e ainda aplaude no telejornal. Isso não é capitalismo, é uma fantasia de capitalismo vestida por cima do velho corporativismo de sempre.
O detalhe que ninguém comenta é que esse tipo de compra individual, espontânea, com recursos próprios, é justamente o que o mercado livre faz de melhor quando ninguém atrapalha. Não houve subsídio, não houve incentivo fiscal, não houve linha de crédito favorecida do Tesouro americano para que o homem comprasse ações da própria empresa. Houve um sujeito calculando risco e retorno com a própria pele, e essa decisão, multiplicada por milhões de outras pequenas decisões parecidas pelo planeta, é o que aloca capital de forma minimamente racional. Nenhum comitê de planejamento, nenhuma autarquia, nenhum ministério da economia consegue replicar essa inteligência distribuída. E quando tenta, quebra tudo.
Então fica a lição para quem investe e para quem governa. Desconfie do executivo que vende ações em silêncio e aposte no que assina cheque próprio em público. Desconfie do político que gasta dinheiro alheio com generosidade e admire o empresário que arrisca o próprio. O resto é conversa para boi dormir e para acionista minoritário pagar a conta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.