O presidente da Rocket Lab acaba de se desfazer de US$ 2,2 milhões em ações da própria empresa, e a notícia foi entregue ao público com aquela embalagem asséptica de sempre, como se fosse rotina burocrática, papelada de fim de expediente, nada que mereça atenção. Pois bem, merece. Quando o sujeito que senta na cadeira mais alta da companhia, aquele que tem acesso aos relatórios que ninguém vê, às projeções que ninguém lê, aos contratos que ainda não foram anunciados, decide converter participação acionária em dinheiro vivo, há sempre uma pergunta legítima a fazer: o que ele sabe que nós não sabemos?
O setor espacial privado é vendido ao público como a nova fronteira do capitalismo heroico, foguetes reutilizáveis, constelações de satélites, colonização de Marte, narrativa de filme de domingo à tarde. E é, em parte. Mas é também um setor que vive de subsídio governamental disfarçado de contrato, de promessa de receita que demora anos para se materializar e de avaliação de mercado inflada por entusiasmo de Twitter. O investidor de varejo entra na festa achando que está apostando em tecnologia. Está apostando, na verdade, na capacidade da empresa de continuar vendendo a história até que algum balanço inconveniente apareça.
Há uma regra antiga, daquelas que se aprende quebrando a cara, que diz o seguinte: existem mil razões para um executivo comprar ações da própria empresa, mas só uma razão de verdade para vender, e essa razão é achar que está caro. Pode-se inventar tecnicismos, plano de diversificação patrimonial, exercício de opções, planejamento sucessório, compra de mansão em algum lugar com vista. A papelada da SEC sempre traz uma justificativa elegante. Mas o mercado não é bobo, ou pelo menos não deveria ser. Quando o insider vende, o sinal está dado, e o sinal não é de otimismo.
O capitalismo de fronteira tecnológica tem essa característica peculiar de transformar a aposta privada em socialização do prejuízo. O CEO ganha quando a ação sobe, exerce a opção quando atinge o gatilho, vende no topo e dorme tranquilo. Se o foguete explode, se o contrato com a agência espacial não se renova, se a concorrência aparece com algo melhor, quem segura o mico é o fundo de pensão que comprou na alta acreditando em projeção de analista pago para ser otimista. O risco é todo do mercado, o ganho é capturado por quem está dentro da sala.
E aqui está o ponto que o noticiário econômico nunca quer tocar: o problema não é o executivo vender, o problema é o sistema inteiro funcionar assumindo que o pequeno investidor deve descobrir a verdade depois, sempre depois, sempre quando já não dá mais tempo de reagir. As regras de divulgação existem justamente porque, sem elas, a assimetria seria escandalosa. Com elas, a assimetria continua existindo, só que com um carimbo de legalidade que faz todo mundo achar que está tudo bem.
Talvez o foguete da Rocket Lab continue subindo. Talvez os próximos lançamentos sejam bem-sucedidos, os contratos militares se multipliquem, a ação dispare e o presidente que vendeu agora se arrependa em silêncio dentro da própria mansão nova. Talvez. Mas a probabilidade de o sujeito que viu de dentro estar errado sobre o preço justo da própria empresa é, historicamente, baixa. Quem está com o pé na porta sabe melhor do que ninguém se a casa está pegando fogo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.