Joe Mansueto, presidente do conselho e fundador da Morningstar, embolsou US$ 3,7 milhões vendendo papéis da empresa que ele mesmo construiu e que ele mesmo continua dirigindo. A operação foi registrada nos formulários regulatórios com aquela linguagem asséptica que serve para anestesiar o leitor desatento, e a imprensa financeira, sempre solícita aos donos do baralho, tratou o assunto como nota de rodapé. Quer dizer, o sujeito que tem acesso privilegiado aos números internos, às projeções, ao humor dos clientes institucionais, decide que é hora de transformar papel em dinheiro vivo, e isso vira "movimento de diversificação patrimonial". Olha, se você acredita nessa redação, talvez também acredite que político promete reforma para te beneficiar.
A Morningstar vive de vender opinião sobre ativos alheios. É a empresa que carimba estrelinhas em fundos de investimento, que classifica o que é bom e o que é ruim no mercado de capitais, e que vende esse selo como se fosse o oráculo de Delfos da renda variável. Pois bem, o oráculo está vendendo o próprio templo. Quando o sujeito que decide quais fundos são cinco estrelas resolve embolsar quase quatro milhões de dólares trocando ações pela liquidez do dólar, alguma coisa naquela classificação merece um segundo olhar. Não é acusação, é aritmética do interesse próprio.
Existe uma regra antiga no mercado, dessas que circulam em salas de pregão desde antes de existir tela colorida, e que diz mais ou menos o seguinte: insiders vendem por mil razões, mas compram por uma só. Quando o controlador, o conselheiro, o executivo de primeiro escalão saca a caneta para vender, pode ser herança, pode ser divórcio, pode ser mansão nova em Aspen. Quando ele compra, é porque enxergou alguma coisa que você não enxerga. A regra não é infalível, mas é estatisticamente teimosa. E o que se vê aqui é venda, não compra.
O detalhe que ninguém quer comentar é o ecossistema de incentivos perversos no qual a Morningstar opera. Ela cobra dos gestores que querem ser avaliados, vende dados para os mesmos fundos que classifica, e ainda tem braço de gestão própria competindo com aqueles que ela mesma analisa. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais elegante, vestido com fraque de governança corporativa. Cada conflito de interesse desses é amortecido por uma camada de comitê, política interna e relatório de sustentabilidade que ninguém lê. Mas o conflito está lá, respirando, e quando o fundador vende milhões, ele está apenas extraindo valor de um arranjo que ele mesmo desenhou.
O que se vê: um executivo vendendo legalmente ações suas, dentro das regras. O que não se vê: o pequeno investidor que comprou aquelas mesmas ações com base no relatório otimista que a casa do executivo produziu sobre o setor. O que não se vê é o gestor de pensão pública que alocou o dinheiro da aposentadoria do garçom em papéis que receberam o aval de uma agência cujo dono está se desfazendo da posição. O que não se vê é que toda a indústria de rating, de classificação, de "análise independente", é estruturalmente parasitária do dinheiro alheio. Vive do medo do investidor pequeno e da preguiça do investidor médio.
O mercado de capitais americano, que ainda é o mais transparente do planeta, oferece esses formulários justamente para que o sujeito comum tenha alguma chance contra a assimetria de informação. Use. Acompanhe o que os insiders fazem, não o que dizem. E desconfie sempre que o profeta da prosperidade alheia estiver, em silêncio, transformando a fé dos outros em dinheiro líquido no próprio bolso. Estrela mesmo, a gente dá para quem arrisca o próprio patrimônio, não para quem vende avaliação dos outros.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.