O presidente do Irã ordenou, segundo a própria mídia estatal, a reabertura do acesso à internet internacional. Leia de novo, devagar, porque a frase contém tudo. Foi preciso uma ordem presidencial para que milhões de pessoas voltassem a ter aquilo que, em qualquer país onde o cidadão não é gado do palácio, se chama simplesmente de cotidiano. A notícia é apresentada como gesto de bondade, quase concessão magnânima. Mas quem precisa autorizar a respiração alheia já confessou, no mesmo ato, que considera o ar propriedade sua.

O detalhe que a manchete esconde é o mais revelador. Se hoje existe um decreto de reabertura, é porque ontem existiu um decreto de fechamento, e entre esses dois decretos houve semanas, meses, anos de uma sociedade inteira amordaçada para que um punhado de clérigos pudesse continuar mandando sem ser questionado. Chamam isso de segurança nacional, de combate à desinformação, de proteção contra inimigos externos. Os nomes mudam conforme a estação, o mecanismo é sempre o mesmo. Primeiro se inventa a ameaça, depois se vende o remédio, e o remédio é invariavelmente a algema.

Quem acompanha a economia iraniana entende o segundo ato da peça. O regime não está descobrindo o valor da liberdade, está descobrindo o custo do isolamento. Sanções apertando, moeda derretendo, jovens fugindo, capital evaporando, e a única coisa que ainda movimentava algum dinheiro era exatamente o comércio digital que os aiatolás haviam decidido estrangular. Cortar a internet num país do século vinte e um é como cortar a estrada de ferro no século dezenove, parece autoridade e é suicídio. A reabertura não é virtude, é desespero contábil. Quando o caixa grita mais alto que a doutrina, até teocracia recua.

Observe agora o truque retórico que toda tirania domina. O ato de devolver um direito é vendido como prova de generosidade do tirano, e não como evidência de que o tirano nunca deveria ter tido o poder de retirá-lo. Funciona porque a memória pública é curta e o aparato de propaganda é longo. Daqui a três meses, quando convier, basta nova ordem presidencial e a tampa volta. O cidadão iraniano vive num sistema onde a liberdade tem horário de funcionamento, e o gerente decide se abre ou fecha conforme o humor. Isto não é Estado, é portaria.

O recado para nós, que assistimos de longe achando que é problema deles, é incômodo. Toda burocracia que se permite o botão de desligar a comunicação alheia eventualmente aperta o botão. O argumento começa nobre, proteção a crianças, combate a fraudes, contenção de boatos, e termina onde sempre termina, na mesa de um funcionário decidindo quem pode falar com quem. Os senhores do palácio brasileiro têm flertado com versões mais educadas desse mesmo mecanismo, e cada flerte é ensaiado com a mesma justificativa moral. A diferença entre Teerã e capitais que se acham civilizadas costuma ser apenas o vocabulário e a paciência.

Fica a lição, pesada como deve ser. Liberdade que depende de autorização não é liberdade, é licença, e licença é exatamente aquilo que se concede para depois revogar. Quando um governo se atribui o poder de fechar a porta, o que ele eventualmente abre não é a porta, é a piada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.