Existe um momento, na vida de toda empresa listada, em que o próprio capitão do navio abre o colete salva-vidas antes mesmo de soar o alarme. Foi o que aconteceu na SBC Medical Group: o presidente e CEO embolsou US$ 9,37 milhões vendendo ações da companhia que ele mesmo comanda. Nada ilegal, diga-se, e é justamente aí que mora o problema. A legalidade da operação é a cortina de veludo que cobre uma verdade antiga e desconfortável, a de que insider sabe de coisa que acionista minoritário só descobre quando a cotação já despencou três andares.
O fato concreto é o que importa, e o fato é este: quem assina os balanços, quem preside as reuniões de estratégia, quem olha nos olhos do CFO toda semana, esse homem decidiu trocar papel por dinheiro vivo em volume suficiente para comprar um prédio inteiro em Manhattan. Analistas de bancos vão sair amanhã com planilhas sofisticadas explicando que se trata de "rebalanceamento de portfólio", "planejamento sucessório", "diversificação patrimonial", todo o vocabulário elegante que serve para esterilizar o que qualquer feirante entende de primeira: o cara está vendendo porque acha que está caro, ou pior, porque sabe que vai ficar barato.
Olha, o mercado de ações opera sob uma assimetria de informação que nenhuma SEC, CVM ou comissão parlamentar jamais conseguiu suprimir, e nem deveria tentar, porque é da natureza das coisas que quem produz saiba mais que quem observa. O que incomoda não é a assimetria em si, é a encenação coletiva de que ela não existe. Fundos de pensão, family offices e o investidor pessoa física que comprou meia dúzia de ADRs pelo Nubank continuam dentro do papel, convencidos pela narrativa institucional de que saúde no Japão é tendência secular, envelhecimento populacional, megatrend, essas palavras mágicas que vendem qualquer coisa. Enquanto isso, o homem que construiu a empresa está fazendo o oposto do que ele próprio sugere ao mercado fazer. Me diz uma coisa: se o dono do restaurante não come no salão, você come?
A trilha do dinheiro, quando se segue com paciência, revela o arranjo completo. Companhia abre capital, captação injeta caixa, executivos recebem pacotes de ações como remuneração variável, o papel sobe puxado por release otimista e apresentação em conferência, e num determinado ponto da curva os próprios que inflaram o discurso saem pela porta lateral com bolsas cheias. O investidor que entrou via home broker achando que estava comprando um pedaço do futuro da medicina asiática, na verdade estava comprando a saída de quem já tinha o futuro na conta. É o ciclo perpétuo dos mercados acionários modernos, e a única defesa do sujeito comum é olhar para o que os donos fazem, não para o que os donos dizem.
Há ainda uma camada que raramente se discute, a do incentivo perverso embutido na estrutura de governança corporativa contemporânea. Quando a remuneração de executivo é atrelada a preço de ação no curto prazo, o CEO deixa de ser guardião do negócio e vira trader do próprio cargo. Ele administra trimestre, não década. Ele compra recompra de ações com dívida, infla lucro por ação artificialmente, aciona o gatilho do bônus, e depois vende no topo. A empresa fica oca por dentro, mas o earnings call soa triunfante. Quem paga a conta? O fundo de previdência do aposentado que depositou confiança em índice, o minoritário que leu análise de casa especializada, a viúva que acreditou no gerente do banco. Sempre os mesmos.
Fica a lição, e ela é velha como o próprio capitalismo financeiro: preste mais atenção nas mãos do mágico do que nas palavras do apresentador. Quando o dono vende, o acionista pensa. Quando o dono vende em volume, o acionista age. Quando o dono vende em volume e o mercado bocejando chama de "movimento rotineiro de liquidez", o acionista sai correndo. Porque rotina, nesse jogo, é o nome que se dá ao que já deveria ter sido manchete.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.