Tom Siebel, presidente executivo da C3.ai, vendeu US$ 252.236 em ações da própria companhia. O número parece pequeno diante da fortuna pessoal do executivo, e é justamente esse o detalhe que o investidor desatento ignora. Não é o tamanho da venda que importa, é o gesto. É o sinal. É o homem que conhece a empresa por dentro, que enxerga a planilha antes do mercado, que sabe o que está nos contratos e o que não está, decidindo que aquele momento específico é bom para transformar papel em dinheiro vivo. Quem vende, sabe. Quem compra, reza.

Há uma coreografia clássica nos mercados de tecnologia, e ela se repete com a precisão de um relógio suíço. Funda-se uma empresa com nome rebuscado, embrulha-se ela na palavra mágica do momento, agora é inteligência artificial, ontem foi blockchain, antes disso foi cloud, antes ainda foi ponto-com, e empilha-se prejuízo em cima de prejuízo enquanto a ação sobe porque a história é boa. Os fundadores recebem em ações. Os executivos recebem em ações. Os funcionários recebem em ações. E todos eles, periodicamente, vendem essas ações para investidores de varejo que acreditaram na promessa do trilhão. A C3.ai acumula prejuízos operacionais consistentes desde que abriu capital, e mesmo assim seus papéis dançam ao ritmo do hype da inteligência artificial. Curioso, não?

Siga o dinheiro e você entenderá o jogo. O dinheiro do investidor pequeno entra comprando a narrativa de que a inteligência artificial vai revolucionar tudo. Esse dinheiro vira liquidez no mercado secundário. Essa liquidez permite que executivos, fundadores e venture capitalists antigos vendam suas posições com lucro estratosférico. O dinheiro sai do bolso de quem trabalhou para juntá-lo e entra no bolso de quem detém ações precificadas pela esperança coletiva. É uma transferência silenciosa, perfeitamente legal, e socialmente celebrada como inovação. Os antigos chamavam isso de outra coisa, mas vamos deixar a etimologia para outra coluna.

O ponto mais delicioso da coisa é que ninguém precisa mentir explicitamente para que a engrenagem funcione. Basta que o executivo apareça em entrevistas falando do potencial transformador da tecnologia, basta que os releases trimestrais enfatizem crescimento de receita sem mencionar a sangria de caixa, basta que os analistas de bancos repitam a tese porque seus empregadores estão posicionados, e o investidor de varejo faz o resto sozinho. Ele quer acreditar. Ele precisa acreditar. A esperança de que desta vez é diferente, de que esta empresa específica é a próxima Amazon, de que o futuro pertence a quem entrou cedo, é o combustível mais inflamável que o capitalismo financeiro já descobriu. E quem está dentro sabe disso melhor do que ninguém.

A questão que o noticiário econômico jamais faz, porque depende dos anunciantes que vivem desse jogo, é simples e cortante. Se a C3.ai é o futuro, por que o homem que mais entende dela está convertendo pedacinhos desse futuro em dólares líquidos hoje? A resposta honesta é que executivos vendem ações por motivos diversos, diversificação patrimonial, planejamento tributário, compras pessoais, e nem toda venda significa pessimismo. A resposta cínica, e provavelmente mais útil, é que quem está no comando enxerga o ciclo melhor do que quem está na plateia, e prefere ter dinheiro na mão a ter promessa no papel quando a maré virar.

O ciclo de bolhas tecnológicas tem uma característica fascinante: as empresas que sobrevivem são as exceções, não a regra. Para cada Amazon que justificou a fé dos primeiros acreditantes, há centenas de cadáveres corporativos cujos nomes ninguém mais lembra, mas cujos fundadores estão muito bem, obrigado, em mansões compradas com o dinheiro de quem comprou na alta. A inteligência artificial é uma tecnologia real, transformadora, com aplicações concretas. A bolha em torno dela é igualmente real, e igualmente histórica em sua repetição. Quando o capitão começa a esvaziar discretamente seu camarote particular, o passageiro prudente verifica onde ficam os botes salva-vidas. O resto continuará dançando no salão até a água chegar nos tornozelos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.