Kunal Kapoor, o homem que comanda a Morningstar, a mesma casa que vive dizendo ao investidor de varejo quais ações comprar, quais segurar e quais largar, acaba de descarregar US$ 3,67 milhões em papéis da própria empresa. O executivo que vende análise de longo prazo para o mundo inteiro fez exatamente o oposto do que recomendaria a um cliente que perguntasse, com olhos brilhando, se vale a pena ficar comprado em uma empresa que ele próprio dirige. E o mercado, com aquela placidez bovina que reserva para os escândalos travestidos de rotina, registrou a operação como se fosse coisa de quem está apenas reorganizando a carteira pessoal.
Olha, existe uma coisa chamada informação assimétrica, e ela é a alma de qualquer mercado financeiro. Quem está dentro da sala vê a planilha antes de ela virar release; quem está fora vê o release depois de ele virar manchete. Quando o sujeito que está dentro da sala vende, ele não está fazendo "rebalanceamento patrimonial", essa expressão linda que assessores de imprensa inventaram para anestesiar o leitor distraído. Ele está convertendo conhecimento privilegiado em dinheiro líquido, e a lei permite porque a lei foi escrita por gente que entende muito bem como funciona o jogo.
Me diz uma coisa: se a Morningstar fosse uma joia subvalorizada, com upside generoso e fundamentos blindados, por que o sujeito que assina os relatórios trimestrais estaria reduzindo posição? A resposta honesta é que ninguém vende US$ 3,67 milhões em ações próprias porque está otimista. Vende porque precisa do dinheiro, porque diversifica risco que conhece bem, ou porque enxerga lá na frente algo que o investidor de varejo só vai descobrir três trimestres depois, quando já tiver pago caro pela ignorância. Qualquer das três hipóteses é interessante, e nenhuma delas combina com o discurso oficial.
O detalhe deliciosamente irônico é que a Morningstar vive justamente de cobrar para dizer ao público o que está acontecendo dentro das empresas. É a casa dos ratings, das estrelinhas, dos relatórios densos que pequenos investidores leem na esperança de encurtar a distância informacional entre eles e os tubarões. Pois bem: o tubarão-mor da casa decidiu que era hora de sacar fichas, e a casa de análise não publicou um relatório explicando por quê. Quer dizer, a transparência é uma mercadoria que se vende ao cliente, mas que dentro de casa funciona com cortinas mais grossas.
O que se vê é uma transação corriqueira, declarada à SEC, juridicamente impecável, eticamente confortável para os critérios bem flexíveis do mercado financeiro americano. O que não se vê é o pequeno investidor que está comprando exatamente as ações que o executivo está vendendo, convencido por algum gráfico bonitinho de que aquele é o ponto de entrada. Toda venda do insider tem um comprador, e o comprador quase nunca tem acesso à mesma informação. É a redistribuição silenciosa de risco dos que sabem para os que confiam, repetida milhões de vezes por dia em todas as bolsas do planeta.
A lição, como sempre, é simples e ninguém quer ouvir: observe o que os donos fazem, não o que os relatórios dizem. Palavras são baratas, prospectos são caros, mas movimento de capital próprio é a única confissão que esses sujeitos fazem sem perceber. Quando o capitão começa a vender o navio em pedaços, você não precisa de meteorologista para adivinhar o tempo que vem aí.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.