Existe uma ilusão reconfortante que contamina o debate eleitoral brasileiro cada vez que se aproxima uma eleição importante: a de que reduzir o número de partidos políticos é, por si só, um avanço civilizatório. A cláusula de barreira seria, nessa fantasia, a guilhotina que poria fim à bagunça, cortando as cabeças inúteis e deixando apenas os partidos "sérios" no jogo. A previsão, porém, merece uma dose de ceticismo que a euforia reformista raramente tolera.
Vejamos o que realmente acontecerá em outubro. PDT e PSB, dois partidos que não têm entre si nenhuma convergência programática relevante além do fato de que ambos precisam de dinheiro e tempo de TV, vão se fundir. SD-PRD e Avante, siglas que a maioria dos brasileiros não sabe distinguir uma da outra, farão o mesmo. PSDB e Cidadania, cadáveres políticos que se recusam a ter o enterro decente, provavelmente formalizarão uma união que já deveriam ter celebrado há anos, quando ainda tinham algum significado. O resultado visual será uma Câmara com menos siglas. O resultado real será o mesmo sistema de sempre, embrulhado em papel de presente novo.
O que a análise eufórica sobre a cláusula de barreira insiste em ignorar é a natureza profunda desses organismos chamados partidos no Brasil. Eles não existem primordialmente para articular visões de mundo, para defender princípios ou para representar correntes genuínas da sociedade. Existem para acessar o fundo partidário, garantir tempo no horário eleitoral gratuito e distribuir cargos entre os seus. Quando você entende isso, percebe que a fusão de duas siglas ocas não produz um partido sólido. Produz uma sigla oca maior, com mais recursos para distribuir entre dois grupos de profissionais da política que antes competiam pelos mesmos benefícios e agora vão dividi-los. Siga o dinheiro e o mistério da fusão se resolve imediatamente.
Há ainda a questão do que não se enxerga quando se olha apenas para os números. A cláusula vai reduzir de trinta e tantas siglas para, digamos, quinze ou dezesseis. Isso parecerá progresso. O que não aparecerá nas manchetes é que o fundo partidário não vai diminuir proporcionalmente, que as estruturas burocráticas dos partidos extintos serão absorvidas, não dissolvidas, e que os mesmos políticos que antes viviam de uma legenda continuarão vivendo de outra. A contagem de cadeiras na Câmara em 2027 ainda mostrará o Centrão intacto, agora reorganizado sob menos etiquetas mas com o mesmo poder de barganha, os mesmos interesses e a mesma disposição de governar com quem pagar mais.
O PL de Bolsonaro com mais de cem deputados, a federação PT-PCdoB-PV com oitenta e tantos, o PSD disputando o terceiro lugar: essa é a fotografia provável da próxima legislatura. Três blocos grandes dominando a Câmara não é, necessariamente, um sistema mais representativo ou mais funcional. É um sistema mais concentrado, onde o poder de veto e de negociação fica nas mãos de ainda menos pessoas. Quem acredita que o problema da política brasileira é a fragmentação excessiva confunde o sintoma com a doença. O problema é que o Estado brasileiro é grande demais, distribui recursos demais e oferece poder demais para que qualquer mecanismo formal consiga impedir a multiplicação de organismos que vivem desse arranjo.
A cláusula de barreira é, no fundo, uma tentativa de usar uma lei para consertar o que só uma mudança cultural e institucional profunda poderia resolver. Ela funciona marginalmente como filtro, isso é verdade, e as sete siglas que desapareceram desde 2018 fazem falta a absolutamente ninguém. Mas confundir a extinção de legendas com o saneamento da política é o mesmo que acreditar que mudar o nome de um produto estragado resolve o problema do produto. Em outubro de 2026, o Brasil vai às urnas. Em novembro, os sobreviventes vão às mesas de negociação. E em dezembro, o cocho estará cheio de novo, com os mesmos rostos sentados ao redor, alguns deles usando camisas com bordados diferentes.
Com informações do Instituto Liberal. A análise e opinião são do O Algoz.