A Macquarie, banco de investimentos australiano com braços espalhados por todos os mercados que importam, publicou esta semana seu relatório de ações de software de inteligência artificial para ficar de olho. A lista inclui nomes como Zscaler, MongoDB, Palo Alto Networks e Innodata, e vem acompanhada de análises sérias, linguagem técnica impecável e aquele tom de autoridade que as casas de pesquisa cultivam com tanto cuidado. O problema não é o que o relatório diz. O problema é o que ele não diz, e o momento em que escolheu dizê-lo.

Existe um ritual muito antigo nos mercados financeiros. Um banco compra uma posição. Depois, publica um relatório recomendando essa posição. O mercado reage, o preço sobe, e o banco vende com lucro para os entusiastas que chegaram depois do disparo do largada. Ninguém chama isso de manipulação porque é legal, é documentado, e acontece com tal frequência que virou paisagem. A pergunta que o investidor de varejo deveria fazer antes de qualquer coisa é simples: quem já está comprado nisto? A resposta a essa pergunta vale mais do que qualquer análise de múltiplos que o relatório possa oferecer. Siga o dinheiro, não o prospecto.

Mas há uma contradição ainda mais reveladora dentro do próprio documento, e ela merece atenção especial. O próprio chefe de pesquisa de software e serviços da Macquarie declarou, sem rodeios, que "as empresas de SaaS estão abraçando a IA agêntica com tudo, mas a adoção está indo muito devagar" e que existe "uma desconexão entre o que as empresas de software corporativo estão dizendo e a realidade da IA agêntica no campo". Dito pelo próprio analista do banco que recomenda comprar essas ações. Quer dizer, a instituição que assina o relatório admite em voz alta que as promessas não se sustentam no mundo real, e ainda assim coloca os papéis na lista de compra. Se isso não é a definição operacional de narrativa, então a palavra perdeu o sentido.

O argumento da vez é o da segurança cibernética como grande beneficiária da IA. A lógica vendida ao mercado funciona assim: a inteligência artificial torna os ataques mais sofisticados, logo as defesas também precisam ser inteligentes, logo compre Zscaler e Palo Alto. Existe uma verdade técnica nessa cadeia, mas existe também um absurdo que passa despercebido na velocidade do pitch. Quando você industrializa a corrida armamentista, o único vencedor garantido não é o defensor nem o atacante; é quem fabrica as armas dos dois lados. Impérios inteiros foram construídos exatamente sobre esse princípio, e os financiadores das guerras europeias do século XIX entenderam isso muito antes de qualquer analista da NASDAQ. A diferença é que hoje o campo de batalha são os servidores corporativos, e as trincheiras se vendem na bolsa.

Os números das empresas citadas contam uma história de duas velocidades. A ServiceNow projeta que suas receitas de assinatura chegarão a 15,5 bilhões de dólares em 2026. A Salesforce alardeia 800 milhões em receita recorrente anual para sua plataforma Agentforce, crescimento de 169% ano a ano. São cifras impressionantes no papel, e ninguém aqui vai fingir que não. O que o entusiasta esquece de perguntar é quanto dessa receita vem de clientes que efetivamente usam os agentes, e quanto vem de contratos assinados por executivos de TI que precisavam mostrar ao board que "já adotaram IA". Comprar uma licença e usar uma licença são coisas tão distintas quanto assinar academia e malhar. O mercado de academias vive disso.

No final, o que a Macquarie vendeu ao mercado desta semana não é análise. É narrativa com logotipo institucional. O investidor pequeno que ler o relatório e sentir que "chegou cedo" está, quase certamente, chegando tarde. As posições já foram montadas, os preços já reagiram aos rumores que antecedem qualquer publicação formal, e o relatório é o sino que toca no momento em que o dinheiro inteligente começa a pensar em saída. Não existe informação gratuita em mercado financeiro. Quando algo parece gratuito, você é o produto, e a pergunta não é se vai pagar, mas quando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.