A Privia Health acaba de entregar mais um trimestre daqueles que os analistas de banco adoram chamar de "resultado misto", expressão covarde que serve para não admitir o óbvio. A receita superou as projeções, claro, porque é fácil empurrar volume quando o sistema inteiro está estruturado para empurrar volume. Já o lucro por ação decepcionou, e aqui mora a história que ninguém quer contar: a medicina americana, transformada em máquina de processar consultas dentro de uma teia de seguros, Medicare, Medicaid e papelada infinita, ficou incapaz de transformar atividade em prosperidade real.
Olha, é preciso entender o que está acontecendo por baixo do balanço. A Privia opera no modelo de organização de prestadores, esse arranjo onde médicos pagam para entrar numa estrutura administrativa que negocia com seguradoras, gere contratos com programas federais e cuida de toda a burocracia que o Estado americano inventou para fingir que controla custos. Receita cresce porque mais médicos aderem, mais pacientes entram no funil, mais procedimentos são faturados. Mas a margem definha porque cada dólar adicional precisa atravessar um labirinto regulatório que custa quase tudo que ele vale.
Quer dizer, o que se vê é a manchete sobre receita batendo previsão. O que não se vê é o exército de compliance, codificadores médicos, advogados de contrato e administradores de risco que existe unicamente porque o setor inteiro foi capturado por uma lógica onde o paciente não paga o médico, o médico não negocia com o paciente, e ninguém tem incentivo para reduzir custo porque o custo é sempre repassado a um terceiro que, por sua vez, repassa para o contribuinte. É a definição clássica de mercado que parou de funcionar como mercado.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que isso é capitalismo? Quando o principal cliente das empresas de saúde americana é o governo federal, quando os preços não emergem da negociação entre quem oferece e quem demanda, quando a precificação é determinada por tabelas administrativas escritas em Washington, o que existe ali tem cara de mercado mas anda como planejamento central. E todo planejamento central produz, mais cedo ou mais tarde, exatamente isto: volume crescente, margem decrescente, eficiência ilusória e um setor inteiro dependente da próxima rodada de injeção de dinheiro federal para continuar de pé.
A história não inventou nada novo aqui. Toda vez que uma atividade humana é progressivamente isolada do mecanismo de preços, ela se torna uma máquina de processar formulários ao invés de uma atividade econômica genuína. Ferrovias estatizadas no século passado, telefonia monopolizada, energia controlada, ensino superior financiado por crédito subsidiado: a Privia é apenas o capítulo médico dessa mesma novela. Receita boa, margem ruim, executivo justificando a "complexidade do ambiente operacional", investidor coçando a cabeça. A complexidade do ambiente operacional é o nome elegante para "estamos sufocados por regras que ninguém pediu e impostos que ninguém aprovou explicitamente".
O recado para quem investe é simples e desconfortável. Resultados como esse não são acidentes corporativos, são sintomas estruturais. Enquanto o sistema de saúde americano continuar sendo essa quimera entre mercado e burocracia, entre iniciativa privada e dinheiro federal, entre inovação e captura regulatória, vamos continuar vendo trimestres onde a receita sobe, o lucro frustra, e o capital pago pelos acionistas vai sendo lentamente convertido em folha de pagamento de auditores. Receita que não vira lucro é trabalho que não vira riqueza. E trabalho que não vira riqueza tem outro nome na história econômica: servidão moderna com nome de plano de carreira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.