A Proact, distribuidora sueca de infraestrutura de TI, fecha o primeiro trimestre de 2026 com margem operacional de 9,3% e apresenta o número como prova de competência gerencial em meio à chamada crise dos preços de memória. Olha, antes de aplaudir o feito, vale fazer a pergunta que ninguém na imprensa de negócios faz: que crise é essa, exatamente? Memórias DRAM e NAND não brotam do solo, não dependem de chuva, não foram destruídas por terremoto. Saem de fábricas que continuam funcionando, com insumos que continuam disponíveis, operadas por três empresas que dominam praticamente todo o mercado global. A escassez, portanto, não é descoberta, é decisão.

Quem acompanha o setor há mais de uma década reconhece o roteiro. Samsung, SK Hynix e Micron controlam algo próximo de 95% do mercado mundial de memória, e a cada ciclo repetem a mesma dança: anunciam corte de produção alegando "ajuste de inventário", reduzem capacidade fabril sob pretexto de "disciplina de capital", e dois trimestres depois o preço do gigabyte triplica enquanto os relatórios trimestrais celebram margens recordes. O consumidor final, do gamer que monta PC ao hospital que compra servidor, paga mais sem que uma única peça nova de tecnologia tenha sido entregue para justificar o aumento. É o velho truque de fechar a torneira para depois cobrar pela água.

Distribuidoras como a Proact prosperam justamente porque atravessam essa engrenagem com agilidade comercial. Compram contratos de longo prazo quando o preço está deprimido, repassam ao cliente corporativo quando o preço explode, e a margem aparece no extrato como se fosse mérito da gestão. Não é. É arbitragem sobre uma distorção criada artificialmente lá em cima. O verdadeiro vencedor está em Hwaseong, em Icheon e em Boise, e o verdadeiro perdedor é o pequeno integrador brasileiro que vai precisar explicar ao cliente por que o servidor que custava trinta mil reais agora custa cinquenta e cinco.

O que se vê é a margem da Proact celebrada nos jornais financeiros. O que não se vê é a startup que cancelou expansão de data center, a escola que adiou a renovação de laboratório, o hospital público que suspendeu compra de equipamento de imagem porque o storage ficou inviável. Cada centavo a mais que o cartão da memória cobra por gigabyte é um centavo retirado de algum projeto produtivo que deixou de existir, de algum emprego que não foi criado, de algum atendimento que não chegou ao paciente. A riqueza não migrou, foi destruída no caminho e uma fração foi capturada por quem opera o gargalo.

O mais irônico nessa história é o silêncio dos órgãos antitruste do mundo inteiro. Quando uma padaria sobe o preço do pão, vira manchete. Quando três corporações sincronizam corte de produção e elevam o custo de toda a infraestrutura digital do planeta, isso vira "dinâmica de ciclo". A diferença não está na natureza do ato, está no tamanho do escritório de advocacia que defende o ato. O cartel discreto, vestido de terno, com sede em três continentes diferentes, conseguiu o que o cartel da padaria jamais conseguiria: ser tratado como fenômeno meteorológico em vez de prática anticoncorrencial.

Margem de 9,3% não é vitória da Proact, é cicatriz da economia mundial. E enquanto o leitor desavisado lê esses números achando que está diante de boa gestão, o cofre dos três grandes da memória continua engordando com a mansidão de quem aprendeu que escassez programada é o negócio mais lucrativo já inventado depois do banco central.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.