O Centro de Tecnologia Canavieira soltou o número e o número é constrangedor para quem vive de explicar por que o Brasil precisa de mais ministério, mais conselho, mais marco regulatório. A produtividade da cana no centro-sul subiu 13% em abril. Treze por cento. Num país onde o PIB engasga em casa decimal e a indústria definha sob a chibata tributária, um setor inteiro acaba de dar um salto que economista de banco classificaria como erro de digitação. Só que não é. É lavoura, é trator, é gente que acorda às quatro da manhã olhando para o céu e para o satélite, calculando se planta, se espera, se corta. Tudo isso sem reunião interministerial.
Repare no detalhe que a imprensa econômica vai deixar passar batido. A cana é, talvez, a cultura mais castigada por intervenção estatal na história recente do Brasil. Pró-Álcool, cotas, tabelamento, CIDE, mistura obrigatória, RenovaBio, política de preço da Petrobras puxando ou empurrando o etanol conforme o humor eleitoral do andar de cima. Cada governo inventou um remendo, e cada remendo gerou o remendo seguinte. Apesar disso, o produtor encontrou brecha, comprou variedade nova, ajustou colheita, investiu em irrigação por gotejamento, mexeu em maturador, e arrancou treze por cento de aumento. Não foi graças ao Estado. Foi apesar dele.
E aqui mora a parte que ninguém em sã consciência política vai dizer em voz alta. Quando uma lavoura dá salto desse tamanho, a primeira pergunta honesta não é "como o governo ajudou", é "quem vai querer abocanhar o ganho". Já se ouve, nos corredores certos, conversa sobre revisar alíquota, repensar o RenovaBio, atualizar a tributação do açúcar, criar um fundo para "compartilhar os ganhos de produtividade com a sociedade". Tradução para o português de quem paga conta: o sujeito investiu, arriscou, acertou, e agora vão querer fatiar o resultado em nome de uma sociedade que não plantou um pé de cana sequer. É o esquema clássico, socializar o lucro depois de privatizar todo o risco durante a década inteira em que o produtor apanhou sozinho.
Há ainda o lado invisível da história, o lado que coluna oficial nunca conta. Cada por cento a mais de produtividade significa menos hectare necessário para a mesma tonelagem, menos diesel queimado por saca, menos defensivo por área útil, mais energia renovável jogada na matriz sem custar um centavo de subsídio direto ao Tesouro. Quer dizer, a mesma agenda ambiental que rende passaporte diplomático e foto em conferência europeia foi entregue, de graça, por agrônomo de bota suja no interior de São Paulo, Goiás e Minas. E ainda assim continuam tratando o produtor rural como vilão de novela das nove, como se o sujeito que alimenta o país e abastece o tanque do carro fosse réu por antecipação.
A lição que o número de abril ensina é antiga e desconfortável. Onde o Estado afrouxa um pouco a corda, ou pelo menos se distrai, a inteligência produtiva floresce. Onde o Estado aperta o cerco com regulamento, conselho consultivo e câmara setorial, a produtividade trava. Não é coincidência que o agro, justamente o setor que mais apanhou de ideologia urbana e menos recebeu de carinho oficial, seja o que sustenta a balança comercial. É exatamente porque foi obrigado a se virar sozinho que aprendeu a andar sozinho. O resto da economia brasileira, mimada por BNDES, protegida por tarifa, viciada em desoneração casuística, continua de muletas, reclamando que o mundo é injusto.
Olha, no fim das contas o recado dos treze por cento é simples e brutal. Riqueza não se decreta em Diário Oficial, se arranca da terra, da máquina e do cérebro de quem topa perder dinheiro próprio para tentar ganhar dinheiro próprio. Toda vez que um burocrata se mete a "destravar" um setor, costuma travar; toda vez que um setor consegue um instante de respiro, deslancha. Era para isso virar política de Estado, mas vai virar, no máximo, motivo para criar mais uma secretaria.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.