O bilionário que construiu uma rede de supermercados a partir de um armazém de bairro e o bilionário que enriqueceu farturando contratos com Estatais, subsídios setoriais e proteção alfandegária moram no mesmo condomínio, voam nos mesmos jatinhos e aparecem nas mesmas listas da Forbes. Para o militante de plantão, ambos são "os ricos", massa indistinta a ser espremida no imposto. Para o liberal de fim de semana, ambos são "empreendedores", heróis intocáveis do livre mercado. Os dois lados estão errados pela mesma razão, e essa razão é tão antiga quanto o primeiro homem que descobriu que era mais fácil tomar do que produzir.

Existe uma fronteira invisível, mas absoluta, entre quem fica rico servindo e quem fica rico expropriando. O primeiro acordou cedo, atendeu o cliente, abaixou margem, melhorou processo, suportou prejuízo no início e foi pago voluntariamente por milhões de pessoas que decidiram, uma a uma, que o produto valia o preço. O segundo conseguiu uma audiência no gabinete certo, pagou a campanha do candidato apropriado, contratou o filho do diretor da agência reguladora, vendeu para o governo a preço de boutique e tirou o concorrente do mapa via portaria publicada às onze da noite de uma sexta-feira. O primeiro enriqueceu porque criou valor. O segundo enriqueceu porque transferiu valor que outros criaram. Tratá-los como iguais é o mesmo crime moral que tratar o cirurgião e o serial killer como "profissionais que mexem com facas".

Quando o progressista grita "taxem os ricos", ele está, na prática, taxando justamente o errado. O sujeito que enriquece roubando via Estado tem advogado tributário, paraíso fiscal, contador caro e lobby permanente em Brasília para esculpir exceção sob medida. Quem paga a conta da nova alíquota é sempre o empresário do meio, aquele que fatura o suficiente para entrar na faixa simbólica do "rico" mas não o bastante para comprar imunidade legislativa. O resultado, repetido em ciclos de cem anos sem que ninguém aprenda, é que cada cruzada igualitária termina fortalecendo exatamente os oligarcas que ela jurou combater. A história dos impostos progressivos é uma piada cruel: nasce para punir o magnata, vira algema do médico de classe média.

O conservador de boutique, por sua vez, comete o erro espelhado. De tanto repetir que "imposto é roubo" e que "todo empresário é heroi", acaba defendendo o banqueiro que se salva com dinheiro público, o industrial que vive de reserva de mercado e o magnata da mineração que paga royalty simbólico por terras conquistadas no balcão do ministério. Confundir o produtor genuíno com o capitalista de compadrio é entregar a bandeira do livre mercado para os piores inimigos do livre mercado. Não há defensor mais útil ao corporativismo do que o liberal ingênuo que aplaude o lucro sem perguntar de onde ele veio.

A pergunta correta nunca é "quanto ele tem", e sim "como ele conseguiu". Se conseguiu vendendo coisa boa por preço que o freguês aceitou pagar, deixe o homem em paz, ele está fazendo a obra de Deus na terra. Se conseguiu via lei feita sob encomenda, contrato superfaturado, monopólio outorgado, subsídio bilionário, perdão de dívida, salvamento bancário ou regulação que esmagou o concorrente menor, então não estamos falando de tributação, estamos falando de devolução. Não é confisco, é restituição. Não é justiça social, é justiça simples, daquela que o pedreiro entende sem precisar de doutorado em Harvard.

A confusão entre essas duas figuras não é acidente intelectual, é estratégia. Convém ao bilionário pilhador esconder-se atrás do bilionário produtor, usá-lo como escudo humano no debate público, e financiar discretamente os dois lados da discussão para garantir que nenhuma reforma tributária jamais distinga uma coisa da outra. Enquanto o pobre brigar com o classe média sobre quem paga mais imposto, o verdadeiro parasita continua almoçando ostras pagas pelo Tesouro Nacional. A maior vitória dos donos do esquema foi convencer todo mundo de que o esquema não existe.

Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.