A Prysmian começou 2026 fazendo o que empresa séria faz quando enxerga uma onda real: posicionou a prancha antes do swell chegar. Margens em expansão no primeiro trimestre, foco declarado em cabeamento para data centers, e um detalhe que escapa do noticiário cor-de-rosa do Investing, é que tudo isso está acontecendo sem que nenhum ministro do Planejamento brasileiro tenha sido consultado, sem que nenhum fundo soberano europeu tenha bancado a aposta, sem que nenhum comitê tripartite tenha discutido se data center é estratégico ou não. A empresa olhou para a demanda, viu fios de cobre virando ouro digital, e foi atrás. Capitalismo em estado bruto, daqueles que assustam o burocrata acostumado a planilha de cinco anos.
O ponto que merece atenção não é a margem da Prysmian em si, é o que ela revela sobre como o mundo real funciona quando a gente desliga o ruído ideológico. A explosão dos data centers não foi planejada por nenhum governo. Ninguém em Bruxelas ou em Brasília acordou em 2018 dizendo, vamos transformar fibra óptica e cabos de alta tensão em commodity estratégica do século XXI. A demanda surgiu da combinação espontânea de bilhões de decisões individuais, gente assistindo vídeo, treinando modelo de IA, rodando carga de processamento, e o mercado, esse organismo que ninguém comanda mas todo mundo participa, redirecionou capital, talento e cobre para onde havia escassez. A Prysmian apenas leu o sinal que os preços estavam gritando.
E aqui mora a piada amarga. Enquanto uma empresa privada italiana ajusta sua produção em tempo real respondendo a sinais de preço, o Brasil discute, em pleno 2026, política industrial para semicondutor, marco regulatório para data center, ressuscitar a Telebrás, taxar exportação de minério crítico, criar agência de inteligência artificial subordinada ao Planalto. Quer dizer, a Itália produz cabo, a Coreia produz chip, Taiwan produz wafer, e o Brasil produz comitê. Cada centavo gasto montando a próxima estrutura tripartite com representante do governo, da indústria e da sociedade civil é centavo subtraído do empreendedor que poderia estar fazendo, sem autorização e sem subsídio, o que a Prysmian está fazendo agora.
Vale seguir o dinheiro também do outro lado. Quem está comprando esses cabos? Hyperscalers americanos, fundos soberanos do Golfo, operadoras europeias, alguns players asiáticos. Capital privado, na esmagadora maioria, decidindo onde construir capacidade computacional sem pedir licença para ninguém além dos donos da terra e das concessionárias de energia. O resultado visível é margem de fabricante de cabo subindo. O resultado invisível, aquele que o jornalismo econômico raramente persegue, é que essa cadeia inteira está sendo erguida apesar dos governos, não graças a eles. Cada autorização ambiental que demora, cada zoneamento que muda no meio do projeto, cada imposto novo sobre energia, é fricção que o capital mede, precifica e, quando passa do limite, desvia para outro país.
A lição que ninguém quer aprender é antiga e simples. Quando você deixa o mercado funcionar, ele encontra o cabo certo, o fornecedor certo, o preço certo, e ainda gera margem para quem acertou a aposta. Quando você tenta planejar, escolhe o campeão errado, financia o lobista mais próximo, congela tecnologia em estado obsoleto e descobre, dez anos depois, que o vizinho que deixou a coisa fluir está vendendo para o mundo o que você tentou produzir no curral. A Prysmian não é gênio, é apenas uma empresa que opera num ambiente onde ainda é permitido responder à realidade sem pedir três alvarás.
Então da próxima vez que alguém aparecer na televisão dizendo que o Estado precisa coordenar a transição para a economia digital, lembre que o cabo que vai conectar o data center que vai treinar o modelo que vai gerar o lucro está sendo produzido agora, neste momento, por gente que nunca foi convidada para reunião nenhuma. O futuro chega sem comitê. Quem espera autorização perde o trem; quem segue o preço, pega a margem.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.