Existe uma regularidade quase cômica na história dos movimentos que chegam ao poder prometendo libertar o povo: em algum momento, sempre descobrem que a liberdade é perigosa demais para ser deixada nas mãos do povo. O PT e sua federação Brasil da Esperança chegaram ao TSE para reclamar de vídeos no TikTok que usam inteligência artificial para simular agressões contra mulheres. A causa é nobre. O instrumento escolhido revela tudo.

Me diz uma coisa: desde quando o Tribunal Superior Eleitoral é o guardião da dignidade feminina no espaço digital? A pergunta não é retórica. O TSE tem uma competência específica, que é o processo eleitoral. Quando partidos políticos começam a usar tribunais eleitorais para disciplinar plataformas de conteúdo com base em vídeos que, por coincidência cósmica, atacam o campo político que eles representam, o que está acontecendo não é proteção. É ocupação de território. É a colonização de mais um órgão do Estado por um interesse partidário, usando a linguagem dos vulneráveis como senha de acesso.

O mecanismo é antigo. Você não declara que quer controlar o discurso, porque isso soa mal até para quem concorda com você. Você encontra uma vítima legítima, envolve a causa numa bandeira emocional incontestável e então, com toda a solenidade de quem está salvando o mundo, pede ao Estado que intervenha. A janela está quebrada. O vidraceiro chega. E quando o vidraceiro é um tribunal que passou os últimos anos expandindo sua própria jurisdição a cada conveniência, o resultado não é vidraça. É grade.

Olha, vídeos fabricados por inteligência artificial que simulam violência contra mulheres reais são um problema genuíno. Ninguém são defende deepfake de agressão como produto cultural desejável. Mas o problema genuíno está sendo instrumentalizado para uma solução que vai muito além do problema. O que se pede ao TSE não é a remoção de conteúdo específico, com critérios objetivos, aplicáveis por igual a qualquer alvo, de qualquer espectro político. O que se pede é que o tribunal intervenha na moderação de uma plataforma com bilhões de usuários, a pedido de um partido que, convenhamos, tem interesse direto em como essa plataforma trata o conteúdo político em ano eleitoral. Siga a cadeia de interesse e você encontra não uma causa humanitária, mas uma disputa de poder sobre o fluxo de informação.

A civilização que aceita que partidos políticos regulem plataformas de comunicação em nome de causas incontestáveis está aceitando o princípio, não o caso concreto. E o princípio é este: quem controla o que você assiste controla o que você pensa, e quem controla o que você pensa controla o que você vota. Empacote isso em proteção às mulheres, chame de combate à desinformação, vista de qualquer nome que o marketing político mandar, o princípio não muda. A pior tirania é sempre aquela que chega com a consciência limpa, convicta de que está fazendo o bem. Essa é a única que nunca para.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.