A Purplebricks, plataforma britânica que vende serviços de corretagem imobiliária por taxa fixa em vez de comissão percentual, acaba de reportar crescimento de 7% na receita. Parece número modesto, mas o contexto é revelador: estamos falando de um mercado onde, historicamente, a corretagem tradicional cobrou 1,5% a 3% sobre o valor de venda de cada imóvel, sem que ninguém jamais tivesse explicado por que exatamente esse percentual, e não outro, era o preço "justo" do serviço. A resposta, claro, é que nunca foi. Era simplesmente o que o cartel informal cobrava porque podia cobrar.
Olha, o interessante desse número não é o número em si. É o que ele denuncia. Quando aparece um concorrente cobrando taxa fixa de mil libras, e o cliente descobre que pagar trinta mil libras de comissão a um sujeito de terno era, digamos, uma escolha estética, não uma necessidade econômica, o resultado natural é migração. E a migração está acontecendo. Sete por cento de crescimento em um setor cuja tese central sempre foi "o cliente precisa de nós porque vender casa é complicado" é a resposta silenciosa do consumidor dizendo que talvez não seja tão complicado assim, ou pelo menos não a esse preço.
Aqui está a lição que ninguém no setor imobiliário brasileiro quer aprender. Enquanto no Reino Unido a Purplebricks cresce, no Brasil os conselhos regionais de corretores continuam a operar como guildas medievais, exigindo registro, exigindo curso obrigatório, exigindo teste, tudo para "proteger o consumidor". Proteger de quê, exatamente? Do sujeito que cobraria menos? Do aplicativo que faria a transação por uma fração do preço? A regulação que se apresenta como escudo do cidadão é, quase sempre, o cerco que protege quem já está dentro do mercado contra quem quer entrar. E o cidadão paga a conta.
Siga o dinheiro e você entende tudo. Toda comissão de 6% em uma venda de imóvel de um milhão é sessenta mil que saíram do bolso de alguém, comprador ou vendedor, tanto faz, porque o preço sempre acomoda a comissão. Multiplique isso por milhões de transações e você tem uma indústria que arrecada bilhões por ano fazendo, essencialmente, o que um site razoavelmente bem programado faz por algumas centenas de reais. A pergunta não é como a Purplebricks conseguiu crescer 7%. A pergunta é como os concorrentes ainda conseguem justificar preços vinte, trinta, cinquenta vezes maiores pelo mesmo serviço.
O que se vê é o crescimento da empresa. O que não se vê são os milhares de compradores e vendedores que, ao longo de décadas, pagaram sobrepreço porque a alternativa simplesmente não existia, ou existia sob ataque regulatório permanente. Cada libra que a Purplebricks arrecada hoje é uma libra que poderia ter ficado no bolso do consumidor há vinte anos se o mercado tivesse sido deixado em paz para inovar. A inovação não é presente do governo. É o que sobra quando o governo, por algum descuido, não conseguiu impedir.
O consumidor, quando lhe dão escolha genuína, escolhe. Não precisa de comitê, de ministério, de conselho regional, de estudo de impacto. Precisa de mercado. E o mercado, quando não é sufocado, faz o que sempre fez desde que o primeiro camelo trocou de dono num oásis: descobrir preços verdadeiros, expulsar quem cobra caro demais pelo pouco que entrega, e recompensar quem entrega mais pelo menos. Sete por cento na Purplebricks é a voz do consumidor britânico dizendo, sem microfone e sem passeata, que estava cansado de pagar caro por pouco. E que agora, finalmente, tem para onde ir.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.