O Kremlin anunciou com a pompa de quem ganhou alguma coisa que Vladimir Putin e Donald Trump conversaram por telefone sobre Irã e Ucrânia. Note o detalhe: foi o Kremlin que correu para divulgar. Quando o lado russo faz questão de publicizar uma ligação, é porque o lado russo entende que saiu da chamada melhor do que entrou. Diplomacia não é caridade, é cálculo. E Moscou não acende vela sem motivo.

Olha, há algo de profundamente arrogante na cena. Dois homens, em dois palácios, decidindo num telefonema o futuro de milhões de ucranianos que estão morrendo na trincheira e de milhões de iranianos que vivem sob uma teocracia podre que eles próprios não escolheram. Ninguém ligou para Kiev antes. Ninguém perguntou ao povo iraniano. A premissa tácita de toda essa coreografia é a de que existem nações sujeito e nações objeto, e que basta um acordo entre os primeiros para que os segundos aceitem o que sobrou. É a mesma lógica que produziu Yalta, Munique, Versalhes, e todos os outros monumentos à hipocrese das grandes potências organizando o mundo na cabeça dos pequenos.

Quer dizer, sigamos o dinheiro, que é onde a verdade costuma se esconder embaixo do tapete da retórica. A guerra na Ucrânia já consumiu mais de duzentos bilhões de dólares do contribuinte ocidental, dos quais uma fração generosa virou comissão de intermediário, contrato de fornecedor preferencial e bônus de executivo da indústria bélica americana e europeia. Cada míssil disparado é faturamento trimestral. Cada tanque destruído é pedido de reposição. A guerra é cara para quem morre e lucrativa para quem fabrica, e essa equação não é bug, é feature do arranjo. Quando Trump e Putin negociam o fim, parte do estabelecimento de Washington trema, não por amor à Ucrânia, mas por amor ao fluxo de caixa.

Sobre o Irã, a conversa é ainda mais reveladora. O regime dos aiatolás é um dos piores do planeta, isso não está em discussão entre pessoas honestas. Mas a política externa americana das últimas três décadas em relação a Teerã foi um catálogo de incoerências caríssimas, alternando bombardeio, sanção, acordo nuclear, rompimento de acordo nuclear, novo bombardeio, e tudo financiado pela impressora de dólares da Reserva Federal, que transforma cada aventura imperial em imposto inflacionário cobrado dos americanos pobres no caixa do supermercado. Putin sabe disso e usa. Ele oferece mediação no Irã como quem oferece um favor que cobra duas vezes: uma na Ucrânia, outra no Oriente Médio.

Me diz uma coisa, em que momento a humanidade aceitou que política externa fosse feita assim, em ligações reservadas entre dois sujeitos que nenhum de nós elegeu para decidir guerra e paz alheia? A resposta incômoda é que sempre foi assim, desde os tratados secretos do século dezenove até as cabines fechadas da Guerra Fria, e que a propaganda de democracia liberal apenas verniza com palavras bonitas o que continua sendo, na essência, o velho jogo dos príncipes. A diferença é que hoje o cidadão paga a conta com mais zeros e menos voz, porque o Estado moderno aprendeu a tributar e endividar com sofisticação que faria inveja aos coletores de Luís XIV.

O leitor talvez esteja esperando que esta coluna torça por Trump ou contra Putin, ou vice-versa. Sinto desapontá-lo. A questão não é qual dos dois é menos pior, a questão é por que aceitamos um sistema internacional onde a vida de povos inteiros depende da química pessoal entre dois homens com botões nucleares na mesa de cabeceira. Enquanto não desmontarmos o culto ao Estado-providência militarizado, enquanto continuarmos delegando a estranhos a decisão sobre quem vive e quem morre, telefonemas como este vão continuar sendo a forma como o mundo é dividido. E nós, contribuintes do ocidente livre, continuaremos pagando pela conta do banquete sem nunca termos sido convidados para sentar à mesa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.