O cargueiro deixou o porto de Ras Laffan, atravessou Ormuz e seguiu seu caminho como se nada tivesse acontecido, e a notícia foi tratada como triunfo diplomático quando na verdade é confissão de fragilidade. Vinte por cento do gás liquefeito do mundo passa por aquele funil. Um terço do petróleo marítimo global também. Quando o estreito tosse, a Alemanha pega pneumonia, o Japão pega bronquite e o consumidor brasileiro paga a consulta no posto de gasolina sem entender por quê.
O detalhe que ninguém comenta nas manchetes é que o Qatar não suspendeu os embarques por bondade nem por coragem. Suspendeu porque seguradora não cobre travessia em zona de guerra ativa, e armador nenhum coloca metaneiro de duzentos e sessenta mil metros cúbicos de gás criogênico no caminho de mísseis sem prêmio de risco que faz o frete dobrar. O mercado, esse organismo que os planejadores adoram chamar de irracional, calculou o risco em tempo real, recuou, esperou o cessar-fogo informal e voltou. Nenhum comitê precisou se reunir. Nenhuma resolução da ONU foi votada. Os preços fizeram o trabalho que os diplomatas fingem fazer.
Enquanto isso, observe a piada cósmica. A Europa passou a última década fechando usina nuclear na Alemanha, demonizando a térmica a carvão na Polônia, sabotando exploração de gás no Mar do Norte e batendo palma para meta de neutralidade carbônica em 2050, tudo enquanto amarrava o próprio pescoço a um gasoduto russo e a um corredor marítimo controlado por aiatolá. Quando o gasoduto explodiu e o corredor ficou em chamas, os mesmos políticos que xingavam o Qatar de petroestado feudal apareceram em Doha de chapéu na mão pedindo contrato de vinte anos. Dependência energética não é teoria, é geografia, e geografia não negocia com ativista.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Cada dia de Ormuz fechado custa bilhões em frete adicional, e essa conta não some, ela viaja pela cadeia produtiva até desembocar no preço do pão, do frete do caminhão, da tarifa de energia da indústria, do botijão da dona de casa. O imposto inflacionário cobrado pela instabilidade geopolítica é o mais regressivo de todos, porque atinge quem ganha salário mínimo com a mesma alíquota de quem mora em cobertura. E o pior: ele é cobrado sem voto, sem lei, sem debate, apenas pela incompetência acumulada de governos que confundiram ideologia ambiental com política energética séria.
O Brasil assiste a tudo com a expressão de quem nunca entende a aula. Sentados em cima de uma das maiores reservas de gás do hemisfério ocidental, com pré-sal jorrando, com potencial hidrelétrico subutilizado e com matriz invejável, ainda assim o país consegue importar gás boliviano caro, sabotar exploração na foz do Amazonas em nome de licença ambiental fantasiosa e celebrar tarifa social de energia que é subsídio cruzado pago pela classe média que paga a conta cheia. O dia em que Ormuz fechar de verdade, e fechará algum dia, o brasileiro vai descobrir que segurança energética não se compra na prateleira nem se decreta em portaria.
A travessia desse navio não é boa notícia, é trégua. E trégua não é paz, é o intervalo entre dois socos. Quem aprendeu a lição investe em diversificação de rotas, em produção doméstica, em infraestrutura redundante, em energia nuclear de verdade. Quem não aprendeu continuará escrevendo manifesto enquanto o termômetro de Berlim marca menos cinco e o aquecedor não liga. A realidade sempre cobra a fatura, e ela não aceita parcelamento ideológico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.