Existe uma piada cruel sendo contada em voz alta nos relatórios de bancos de investimento, e quase ninguém percebeu o trocadilho. A mesma classe analítica que passou duas décadas alertando contra a concentração corporativa hoje projeta, com naturalidade quase litúrgica, que cinco ou seis empresas vão capturar a maior parte da rentabilidade gerada pela inteligência artificial na próxima década. E o tom não é de alarme. É de admiração. Quer dizer, o que era pecado capital quando se chamava Standard Oil virou virtude estratégica quando se chama hyperscaler. A linguagem mudou, o fenômeno é o mesmo, e a hipocrisia atingiu níveis que envergonhariam um cardeal renascentista.
Olha, ninguém em sã consciência nega que a IA produz ganhos genuínos de produtividade. O problema não está na tecnologia, está no arranjo. Quando três ou quatro empresas controlam os modelos de fronteira, os chips para treiná-los, a nuvem que os hospeda e os canais de distribuição que os entregam ao consumidor final, você não tem mais mercado, tem um condomínio fechado cobrando pedágio em cada esquina da economia digital. E o mais delicioso é que esse condomínio foi construído com dinheiro impresso por bancos centrais durante quinze anos de juros artificialmente baixos, capital que jamais teria fluído para queima de bilhões em modelos especulativos se a taxa refletisse a preferência temporal real das pessoas.
Me diz uma coisa, quem regula essas empresas? Quem as audita? Quem fiscaliza os contratos bilionários que elas firmam com agências governamentais, ministérios da defesa, sistemas previdenciários inteiros? A resposta verdadeira é constrangedora, são elas mesmas que escrevem as regras pelas quais serão julgadas, por meio de exércitos de lobistas instalados em Washington, Bruxelas e, cada vez mais, Brasília. A captura regulatória deixou de ser exceção e virou método. O setor produz a tecnologia, produz o discurso de pânico moral sobre a tecnologia, e em seguida oferece ao Estado a solução regulatória que, por acaso milagroso, exige escala que só elas possuem para cumprir. Barreira de entrada vendida como segurança pública. Aplaudida pela imprensa econômica como responsabilidade civilizatória.
O efeito sobre a lucratividade agregada é matematicamente previsível. As margens vão migrar dos setores tradicionais para um punhado de plataformas que se tornam infraestrutura compulsória da economia, do mesmo modo como ferrovias se tornaram no século dezenove e companhias elétricas no início do vinte. A diferença é que ferrovia e eletricidade enfrentaram, eventualmente, alguma resistência política séria. A IA está sendo entronada antes mesmo de ser questionada, porque a narrativa de inevitabilidade tecnológica anestesiou o debate antes que ele começasse. E o que se vê nos balanços é apenas metade da história. O que não se vê são as pequenas empresas que jamais nascerão porque o custo de competir com um oligopólio subsidiado pela própria estrutura de capital barato é proibitivo. Empregos que não existirão. Inovações que serão estranguladas no berço porque ousaram desafiar o feudo.
Há um detalhe filosófico que merece atenção aqui, e ele é mais profundo do que qualquer planilha de projeção. Quando uma sociedade aceita que algumas poucas corporações decidam o que será considerado verdade pelos algoritmos que mediam noventa por cento das suas interações cotidianas, ela já não é exatamente uma sociedade livre, é uma população tutelada por curadores invisíveis que se intitulam neutros. O risco da concentração não está apenas no preço cobrado pelo serviço, está na erosão lenta do hábito mental de pensar por conta própria. A história ensina, com ferocidade, que toda concentração econômica desmesurada termina como concentração política, e toda concentração política termina como tirania, ainda que de cara sorridente e botas brancas de tênis corporativo.
A pergunta correta, então, não é qual será o impacto da IA sobre a lucratividade das empresas, essa é a pergunta dos analistas que recebem para não enxergar o quadro inteiro. A pergunta correta é quem está pagando essa lucratividade extraordinária, e a resposta inconveniente é, todo mundo, em parcelas mensais disfarçadas de assinaturas, mensalidades, taxas, comissões e tributos cobrados para que o Estado possa subsidiar a expansão do mesmo oligopólio que diz combater. O lucro de poucos sempre foi o imposto silencioso sobre muitos. Mudou só o nome da fatura.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.