A Qualcomm fechou o segundo trimestre fiscal de 2026 acima das expectativas de Wall Street e o detalhe mais incômodo para os apóstolos do planejamento central é justamente o motivo. Não foi pacote do Tesouro americano, não foi linha do BNDES da vida deles, não foi "fundo soberano de semicondutores" inventado por algum tecnocrata de gravata. Foi diversificação, palavra que no vocabulário empresarial significa simplesmente isto: alguém arriscou capital próprio apostando em automotivo, em internet das coisas, em PC com inteligência artificial embarcada, e o cliente respondeu comprando. O resto é ruído.
Olha, é fascinante observar como a imprensa econômica trata esse tipo de resultado como se fosse mistério da física quântica. A Qualcomm dependia demais de smartphone, viu o ciclo desacelerar, redirecionou pesquisa e desenvolvimento para outras frentes e agora colhe. Isso, que qualquer feirante de bairro entende intuitivamente quando troca o ponto da banca de tomate para a banca de queijo artesanal porque o vizinho começou a vender tomate mais barato, vira na boca dos comentaristas uma "estratégia sofisticada de pivot tecnológico". Sofisticado é o nome que dão para o óbvio quando o óbvio incomoda a tese de que sem Estado nada funciona.
Quer dizer, compare o caso com a obsessão brasileira da temporada. Enquanto a Qualcomm reorienta bilhões em capital privado por decisão de acionistas que respondem por cada dólar mal alocado, aqui se discute mais um plano para "fortalecer a indústria nacional de semicondutores" com dinheiro do contribuinte, escolhido em gabinete por gente que nunca correu risco de capital na vida. O resultado dessas brincadeiras todo mundo conhece, basta abrir o histórico do Ceitec, da Telebras, do estaleiro do Atlântico Sul, da refinaria de Pasadena, da lista interminável de cadáveres industriais financiados com imposto e enterrados com nota oficial dizendo que "houve aprendizado". O aprendizado, claro, foi do lobista que recebeu adiantado.
Me diz uma coisa, por que ninguém pergunta o que se vê e o que não se vê quando o assunto é política industrial? Vê-se a fábrica inaugurada com fita cortada e ministro sorrindo. Não se vê a padaria que fechou porque o dono pagou imposto para financiar a fábrica. Vê-se o emprego "criado" pelo subsídio. Não se vê o emprego destruído pela carga tributária que pagou o subsídio, nem o capital que fugiu para país menos predador, nem a inovação que nunca aconteceu porque o capital foi confiscado para premiar o amigo do rei. A Qualcomm não pediu nada disso e está lucrando. A indústria brasileira pede tudo isso e definha. Coincidência cosmica, deve ser.
Há algo quase pedagógico no contraste. O capitalismo de verdade é antiestético para o burocrata porque ele não controla. Não tem reunião marcada, não tem assinatura no decreto, não tem foto na cerimônia. Tem só milhões de decisões dispersas, gente apostando dinheiro próprio, errando, corrigindo, tentando de novo, e a soma disso, sem mestre de cerimônias, gera resultado superior a qualquer comitê de notáveis. É exatamente o que a Qualcomm acabou de demonstrar em mais um trimestre. E é exatamente o que o brasileiro nunca verá enquanto continuar acreditando que prosperidade é coisa que se decreta no Diário Oficial.
O número do trimestre passa, o ensinamento fica. Empresa que precisa do Estado para sobreviver não é empresa, é dependente químico de imposto alheio. Indústria que floresce sem pedir esmola fiscal é a única que merece o nome. O resto é teatro caro pago com o suor de quem nunca foi convidado para a estreia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.