A ação da Qualicorp despencou quase quatorze por cento numa única sessão depois que a companhia anunciou o processo de sucessão do presidente executivo, e o mercado fez o que sempre faz quando enxerga vácuo de comando em empresa já cambaleante, vendeu primeiro e perguntou depois. O movimento bruto, porém, conta apenas a parte visível da história. A parte invisível, que é justamente a que importa, está nos anos anteriores de erosão patrimonial, em decisões judiciais que reescreveram contratos privados a posteriori, em uma agência reguladora que transformou o setor de saúde suplementar num campo de tiro ao alvo, e numa estrutura societária que viveu mais de litígio entre acionistas do que de geração de caixa. Trocar o CEO nesse cenário é como trocar a fechadura da porta enquanto o telhado desaba.

O negócio da Qualicorp sempre foi peculiar, intermediar planos coletivos por adesão, vendendo a entidades de classe acesso a tarifas que individualmente seriam proibitivas. Funcionou enquanto funcionou. Mas todo modelo construído sobre uma brecha regulatória vive na corda bamba, porque a brecha que o regulador permitiu ontem ele fecha amanhã, e quando fecha, leva junto a tese de investimento de quem comprou ação acreditando em perpetuidade. Os reajustes que sustentavam a rentabilidade viraram judicializáveis. A migração compulsória de beneficiários, escrutinada. O custo médico-hospitalar, esse, segue subindo dois dígitos ao ano enquanto o ticket é amarrado por canetada. A conta não fecha, e quem entende de aritmética básica sabia que não fecharia.

Vale a pena seguir o dinheiro. Quem ganhou na década de bonança da Qualicorp, antes da operação virar dança macabra com escritórios de advocacia e agência reguladora, foi um número muito pequeno de acionistas controladores que extraíram dividendos generosos no topo do ciclo. Quem perdeu, agora, é o pequeno investidor que comprou a tese de que saúde no Brasil era setor defensivo, perene, blindado contra ciclo. Defensivo coisa nenhuma, num país onde o setor mais regulado é também o mais vulnerável ao humor político. Cada nova resolução normativa é uma reforma de produto imposta de fora, cada ação civil pública é um redesenho de margem retroativo, cada audiência pública na agência é uma novela cujo desfecho ninguém prevê.

O detalhe que poucos comentam é que esse colapso de valor não é fenômeno isolado da Qualicorp. As operadoras maiores também apanharam. Hospitais listados apanharam. Laboratórios apanharam. O setor inteiro virou caso clínico daquilo que acontece quando o Estado, sob o pretexto de proteger o usuário, transforma o prestador em refém. O resultado prático é o oposto do prometido. Planos somem do mercado, redes credenciadas encolhem, fila cresce, qualidade despenca, e o usuário que deveria ser protegido descobre que está pior do que estava antes de ser protegido. É a velha lei das consequências não pretendidas, que pretendidas de fato não são, mas previsíveis para quem se dá ao trabalho de pensar antes de regulamentar.

A sucessão anunciada não vai resolver nada disso, e o mercado entendeu na hora. Não existe executivo lendário capaz de fazer milagre num ambiente em que cada decisão estratégica precisa passar pelo crivo de três poderes simultaneamente, o regulador, o judiciário e o ministério público, cada um com sua agenda, sua interpretação, sua canetada. O capital é covarde por natureza, e faz bem em sê-lo, porque capital corajoso em ambiente hostil vira capital queimado. A queda de quatorze por cento é o preço que o investidor cobra para continuar exposto a um risco que ele não consegue mais precificar, porque a regra do jogo muda no meio da partida.

Resta a lição que ninguém tira, e por isso sempre se repete. Setores capturados por agências hiperativas terminam todos no mesmo lugar, com poucas empresas sobrevivendo, todas grandes demais para morrer, todas pequenas demais para inovar, e o consumidor pagando mais por menos enquanto agradece a proteção que recebe. A Qualicorp é apenas o capítulo de hoje. Amanhã será outra. E depois outra. Até que alguém perceba que o problema nunca foi o CEO.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.