Repare na anomalia antes de qualquer análise. Num setor inteiro, o ativo que ficou em último lugar no mês subiu 4,0%. Não caiu, não andou de lado, não ficou no zero a zero, subiu. E subiu mais do que muito fundo de renda fixa entrega num ano. Quando o perdedor de uma corrida cruza a linha de chegada com medalha de prata em qualquer outro campeonato, a pergunta não é mais quem ganhou, é o que está acontecendo com o cronômetro.
O que está acontecendo é o de sempre, só que com roupa nova. Toda vez que aparece uma tecnologia genuinamente disruptiva, e a inteligência artificial é, o capital corre para lá numa enxurrada que não distingue mais a empresa que entrega valor real da empresa que apenas colou a sigla certa no nome de fantasia. Ferrovias no século dezenove, eletricidade no início do vinte, internet no fim do vinte, todas tiveram seu momento em que o lanterninha subia 4,0% no mês porque o dinheiro precisava ir para algum lugar e não havia tempo para escolher direito. O resultado dessas festas todas o leitor já sabe, sobra cinza para quem entrou tarde e villa em Mônaco para quem vendeu na hora certa.
Agora siga o dinheiro. De onde vem essa avalanche que faz até o fundo do poço subir? Vem da mesma fonte de todas as bolhas modernas, taxa de juros artificialmente baixa em algum lugar do mundo, expansão monetária travestida de "estímulo", capital que precisa fugir de moedas que perdem poder de compra todo trimestre. Quando o banco central imprime, o capital não some, ele migra. E migra para onde a história contada é mais sedutora. A IA hoje conta a melhor história desde a internet, e por isso recebe a maior enxurrada. Não é mérito apenas das empresas, é também sintoma da degradação monetária que ninguém quer chamar pelo nome.
O perigo dessa euforia é que ela contamina o cálculo econômico de quem produz de verdade. Empresário sério precisa decidir se investe em máquina, em pessoal, em estoque, em pesquisa. Quando o dinheiro especulativo distorce todos os preços de ativos para cima, o sinal que chega ao tomador de decisão é falso. Ele acha que está rico porque a carteira subiu, contrata além da conta, compra o galpão que não precisava, e quando a maré vira fica com a estrutura inflada e o caixa vazio. A bolha não machuca apenas o investidor de varejo que entrou no topo, ela desorganiza a economia inteira do lado real.
Existe coisa boa no meio? Existe, e é justamente por isso que a coisa é traiçoeira. A inteligência artificial vai mesmo transformar setores inteiros, vai mesmo gerar produtividade que fará a economia parecer outra em dez anos. O problema é que essa verdade técnica está sendo usada como passaporte para precificar qualquer coisa que respire algoritmo como se fosse a próxima empresa de um trilhão de dólares. Das centenas que estão subindo hoje, talvez cinco entreguem. As outras vão virar caso de estudo em cursos de finanças sobre como reconhecer mania coletiva. A tecnologia é real, a precificação é fantasia, e quando essas duas coisas se descolam o ajuste sempre acontece pelo lado mais doloroso.
O recado para quem não quer virar estatística é antigo e impopular. Desconfie do consenso eufórico, principalmente quando o pior do grupo ainda dá 4,0% em trinta dias. Mercado saudável tem vencedores e perdedores de verdade, ganhos modestos misturados com prejuízos honestos, dispersão que reflete a realidade desigual das empresas. Quando todo mundo sobe junto, não é o setor que está bom, é o dinheiro que está sobrando. E dinheiro sobrando, na história econômica, sempre teve o mesmo destino, evaporar tão rápido quanto apareceu, deixando para trás uma multidão segurando ações que já não valem o papel digital em que foram emitidas.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.