Vinte e cinco por cento dos empregos do mundo, segundo o relatório, estão sob risco de transformação pela inteligência artificial. O número é redondo demais para ser sério e amplo demais para ser falso, o que faz dele a peça publicitária perfeita. Quem produz esse tipo de estatística vive de produzir esse tipo de estatística, e a primeira pergunta que ninguém faz é a que mais importa: quem ganha quando o medo se transforma em manchete? O banco que escreve o relatório vende consultoria para empresas que precisam se reestruturar por causa do relatório, vende fundos temáticos de IA para clientes assustados pelo relatório, e vende cobertura analítica para investidores institucionais que querem entender o relatório. É um ciclo perfeito, e o circuito se fecha antes mesmo de o primeiro emprego desaparecer de verdade.
Olha, a história econômica é um cemitério de previsões catastróficas sobre tecnologia destruindo o trabalho. O tear mecânico ia acabar com os tecelões, a eletricidade ia liquidar os acendedores de lampião, o computador pessoal ia esvaziar os escritórios, o caixa eletrônico ia exterminar os bancários, e a internet ia matar o varejo. Em todos esses casos houve, sim, deslocamento brutal de função, sofrimento real de gente real, e ninguém precisa fingir que transição é indolor. Mas em todos esses casos a economia produziu mais empregos do que destruiu, porque produtividade maior é riqueza maior, e riqueza maior é demanda maior por coisas que a geração anterior nem sabia que queria. O que se vê é o caixa demitido. O que não se vê é o programador, o gerente de produto digital, o suporte técnico, o analista de dados e o entregador de aplicativo que só existem porque o caixa foi demitido.
Quer dizer, o problema não é a inteligência artificial substituir vinte e cinco por cento das funções, é o Estado que vai correr para regular vinte e cinco por cento das funções como se entendesse alguma coisa do que está regulando. Já dá para ouvir o coro do imposto sobre robôs, da renda básica universal, do retreinamento obrigatório financiado pelo contribuinte, do conselho consultivo paritário com representação sindical, e de toda a parafernália burocrática que transforma uma transição de mercado, naturalmente dolorosa mas eventualmente próspera, em uma transição estatal, permanentemente dolorosa e eternamente subsidiada. Onde houver burocrata desempregado vai aparecer comissão para estudar o desemprego, e a comissão nunca termina porque o estudo nunca conclui.
Me diz uma coisa, por que justo agora os bancões se descobriram preocupados com o trabalhador? Os mesmos balanços que celebraram a financeirização da economia nas últimas três décadas, que aplaudiram a transferência de empresas reais para mãos de fundos de fundos de fundos, que lucraram alegremente com cada onda de fusão e demissão, agora viram súbito sociólogos do precariado. É uma piada de mau gosto. O interesse legítimo deles é vender narrativa, e narrativa de risco é a mais lucrativa de todas, porque assusta o cliente para ele comprar mais proteção, mais cobertura, mais consultoria, mais produto estruturado. A inteligência artificial é a próxima onda de financeirização, e quem está escrevendo o relatório é exatamente quem vai surfar essa onda.
O fato concreto é que tecnologia não destrói emprego, ela destrói função. Função é o que o burocrata pensa quando pensa em emprego, porque burocrata vive de carimbar formulário e o formulário tem nome de cargo. Emprego de verdade é a capacidade de uma pessoa criar valor para outra pessoa que está disposta a pagar por isso, e essa capacidade não some, ela migra. O que precisa sumir é a fantasia de que o governo, a universidade, o sindicato ou o banco central vão pilotar essa migração melhor do que milhões de indivíduos decidindo, errando, ajustando e recomeçando todo dia. Toda vez que se tentou pilotar a transição tecnológica do alto, o resultado foi pior do que deixar a transição acontecer. Sempre.
A pergunta certa, portanto, não é quantos empregos a inteligência artificial vai eliminar, e sim quantas liberdades os senhores doutores vão eliminar a pretexto de salvar os empregos que a inteligência artificial não eliminou. Aposte no segundo número, ele será sempre maior.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.