A notícia é curta e reveladora. Os credores bancários da Raízen teriam desenhado um plano para salvar a companhia do próprio peso, e entre as medidas estão usar trinta por cento da venda de ativos na Argentina para abater dívida e substituir Rubens Ometto na presidência do conselho. Traduzindo do corporativês para o português cru, o banco cansou de ouvir promessa, apresentou conta e avisou que o patriarca vai para a cadeira do fundo da sala. Quando o credor redige o próprio plano de reestruturação, a empresa já perdeu o controle da narrativa; o que está em jogo não é mais estratégia, é sobrevida.

Vale lembrar o tamanho do personagem. A Raízen nasceu como joint venture entre Cosan e Shell, virou gigante global de etanol, açúcar e distribuição de combustíveis, e foi por anos o cartão de visita do chamado capitalismo verde brasileiro. Empresa listada, ESG nos relatórios, bilhões em ativos, e ainda assim chega ao ponto em que os bancos precisam sentar na cadeira da diretoria e decidir o que se vende, quem se demite e quanto sobra para o acionista. Nada disso cai do céu. Isso é o resultado final de uma década de dinheiro barato, juros manipulados lá embaixo e expansão alavancada em um setor que vive de decreto, mistura obrigatória e RenovaBio.

É aqui que vale seguir o dinheiro. O setor sucroalcooleiro brasileiro não é um mercado livre; é um arranjo. A gasolina é obrigada por lei a carregar etanol anidro. A frota flex foi empurrada por incentivo fiscal. O RenovaBio inventou um ativo chamado CBIO que só existe porque o governo decidiu que existiria, e obriga distribuidoras a comprar papel de descarbonização das usinas. Quer dizer, parte relevante da receita dessas empresas não vem de consumidor escolhendo abastecer com etanol, vem de burocrata assinando portaria. Quando você constrói um império sobre canetada, basta a canetada tremer, ou o juro subir, ou a demanda ceder, para a estrutura inteira ranger. A Raízen está rangendo em alto e bom som.

A parte argentina da história é quase poética. Vender ativos do outro lado da cordilheira, onde um governo tentando cortar gastos enfrenta resistência feroz, para pagar banco brasileiro em um ciclo de crédito apertado, é a confissão de que o grupo se esticou geograficamente muito além do que a geração de caixa aguentava. Trinta por cento do que entrar vai direto para credor; o resto mal cobre o buraco operacional. É a velha história do sujeito que vende o sítio para pagar o cartão, e ainda acha que está fazendo planejamento financeiro.

A troca de Ometto no conselho é o detalhe mais eloquente. Fundador não sai por vontade própria de cadeira que construiu; sai quando quem tem o cheque na mão decide que ele sai. Em toda reestruturação séria, o primeiro ato simbólico é esse: mostrar ao mercado que o antigo regime acabou, que há adultos novos na sala, que as decisões passarão por uma racionalidade externa à família controladora. É humilhante, é necessário do ponto de vista dos bancos, e é o preço cobrado de quem confundiu tamanho com solidez.

A lição que ninguém vai querer tirar é a única que importa. Quando um setor inteiro vive de mistura obrigatória, crédito subsidiado pelo BNDES, benefício fiscal regional e mercado artificial de créditos de carbono, o sinal de preço mente sistematicamente para o empresário. Ele investe onde não deveria, se alavanca no que não se sustenta, e acredita que é gênio quando na verdade é beneficiário. No dia em que o vento muda, e sempre muda, descobre-se que o tal gigante verde tinha pé de barro, e que o contribuinte pagou duas vezes: uma para inflar a bolha, outra agora, via banco público exposto, para que ela não estoure alto demais. A próxima Raízen já está sendo gestada em algum PowerPoint de ministério, com gráficos bonitos e a promessa de que desta vez é diferente. Nunca é.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.