A semana no mercado brasileiro entregou dois capítulos do mesmo enredo, e quem souber ler nas entrelinhas já sabe o final. De um lado, a Raízen anunciando reestruturação, palavra elegante para dizer que o modelo não fechava a conta e agora alguém vai ter que engolir o prejuízo. Do outro, a Brava virando objeto de oferta pública de aquisição, num movimento que praticamente confessa que a vida de companhia listada na B3 deixou de valer a pena para boa parte dos controladores. Dois sintomas, uma só doença.

Comecemos pela Raízen, joint venture bilionária entre Cosan e Shell, vendida durante anos como o futuro do etanol, da bioenergia e de tudo aquilo que o ESG sussurra no ouvido do investidor incauto. O problema é que futuro não paga juro, e juro real em dois dígitos cobra pedágio até dos profetas. A empresa carrega dívida do tamanho de país pequeno, montada na fase em que dinheiro barato fazia qualquer projeto parecer genial. Acabou o dinheiro barato, ficou a dívida. Reestruturar aqui significa rezar para o credor aceitar receber mais tarde, ou para o acionista aceitar receber menos, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Sempre as duas, na prática.

Repare no padrão. Toda vez que o ciclo monetário vira, aparecem as mesmas figuras prometendo que desta vez é diferente, que a empresa é estratégica, que o setor é resiliente, que basta um fôlego para virar o jogo. É o boom artificial cobrando seu pedágio inevitável. Companhias que cresceram empilhando alavancagem em cima de tese ideológica descobrem, no susto, que a realidade econômica não se comove com narrativa de transição energética. A energia que move o caixa é a do fluxo livre, não a da bioenergia subsidiada por enquadramento regulatório.

A Brava conta a outra metade da história. Fruto da fusão entre 3R Petroleum e Enauta, foi vendida como o grande consolidador do petróleo independente brasileiro, e em poucos meses já está sendo retirada da prateleira. OPA, fechamento de capital, adeus. Pergunta honesta: por que tantas empresas brasileiras estão deixando a Bolsa, e por que praticamente nenhuma nova quer entrar? A resposta está no espelho da Faria Lima, mas ninguém quer olhar. Custo regulatório absurdo, insegurança jurídica crônica, carga tributária confiscatória, judiciário que reescreve contrato como quem reescreve poema, e um arcabouço fiscal que de arcabouço só tem o nome. Estar listado virou luxo para quem não tem alternativa.

E aqui vale seguir o dinheiro com calma. Quando uma controladora propõe OPA com prêmio modesto sobre cotação deprimida, ela está comprando barato aquilo que vendeu caro lá atrás, no IPO da euforia. O minoritário que entrou no auge financia o fechamento de capital na baixa. É a transferência de riqueza mais elegante que o capitalismo de compadrio tupiniquim sabe executar, e ainda recebe aplauso de analista vendendo o relatório como "destravamento de valor". Destravamento de valor para quem, exatamente, ninguém pergunta.

A lição que ninguém quer tirar é que mercado de capitais saudável não nasce de gestor heroico nem de relatório bem escrito. Nasce de moeda estável, juro civilizado, contrato respeitado, imposto baixo e regulador que entende seu lugar. Tudo aquilo que o Brasil sistematicamente sabota há décadas, governo após governo, com a aprovação ruidosa dos mesmos economistas que depois aparecem chocados quando a Raízen pede socorro e a Brava foge do pregão. O circo está armado, os palhaços conhecem o roteiro, e o ingresso continua sendo cobrado do mesmo público de sempre.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.