A Rambus anunciou mais um chipset para módulos de memória destinados a servidores de IA, e o mercado reagiu como sempre reage diante de qualquer sigla associada a inteligência artificial, com o entusiasmo de quem vê ouro escorrendo pela peneira. Na corrida do ouro californiana do século XIX, quem ficou rico não foram os garimpeiros delirantes agachados no riacho, foram os sujeitos que vendiam pás, picaretas e jeans reforçados. A Rambus entendeu a lição. Ela não fabrica o modelo de linguagem, não treina a rede neural, não disputa espaço com a Nvidia no palco das conferências. Ela vende o componente sem o qual nada daquilo funciona, e cobra o que quiser porque a fila anda.

O detalhe que some das manchetes é o contexto em que essa festa acontece. A infraestrutura de IA nos Estados Unidos não está sendo construída com capital paciente de investidor que leu balanço e confiou no produto. Está sendo construída sobre uma montanha de crédito barato acumulado por mais de uma década de política monetária expansionista, somada agora a subsídios explícitos via lei de semicondutores, incentivos fiscais monumentais e encomendas públicas disfarçadas de contratos de defesa. Quando o governo decide que um setor é estratégico, o dinheiro fácil aparece do nada, os valuations explodem, e de repente toda empresa que toca no assunto vale dez vezes mais do que valia no ano anterior. Parece mágica. Não é.

Me diz uma coisa, por que justamente agora todo mundo que fabrica memória, interconexão, resfriamento líquido, transformador de subestação e até parafuso especial para data center virou queridinho de bolsa? A resposta sincera é que esses boom setoriais simultâneos não acontecem em economia saudável. Acontecem quando o sinal de preço foi adulterado por expansão de crédito artificial e por direcionamento político do investimento. O mercado não escolheu livremente alocar trilhões em IA, o mercado está respondendo a incentivos plantados por burocratas que acham que conseguem adivinhar o futuro tecnológico melhor do que o sujeito que arrisca o próprio dinheiro.

E aí entra a parte que o analista de banco não vai escrever no relatório. A Rambus é uma empresa competente, o produto é real, a tecnologia funciona. Isso não está em discussão. O que está em discussão é se o tamanho do mercado que ela serve corresponde à demanda genuína dos consumidores ou se corresponde à demanda fabricada por capital barato. Porque quando a maré mudar, e ela sempre muda, quem estava nadando pelado aparece. O chipset continua sendo excelente, mas o cliente some, o contrato é renegociado, o valuation volta à terra, e o jornalista que hoje escreve eufórico vai escrever daqui a dois anos sobre a surpreendente correção do setor, como se ninguém pudesse ter previsto.

Olha, existe algo quase cômico em ver a imprensa econômica brasileira reproduzir esses lançamentos como se fossem notícia neutra de tecnologia. Não são. Cada chipset desses é peça de um quebra cabeça geopolítico em que o contribuinte americano está bancando, via inflação futura e dívida pública, a tentativa do governo dos Estados Unidos de não perder a guerra tecnológica para a China. O investidor brasileiro que compra ação dessas empresas acha que está surfando inovação, na verdade está financiando um projeto de poder com dinheiro que nem é seu, é emprestado pelo sistema bancário globalizado que funciona à base da mesma mágica monetária.

A moral da história é velha e desconfortável. Toda vez que todo mundo concorda que determinado setor vai subir para sempre, é porque alguém muito poderoso precisa que ele suba. E quando esse alguém retira a mão, a física econômica volta a funcionar. Os vendedores de picaretas ganham dinheiro na ida e na volta, é verdade, mas os garimpeiros empolgados ficam com o buraco.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.