A Rambus lançou nesta semana o SOCAMM2, um chipset voltado para módulos de memória de alta largura de banda destinados a servidores de IA, e o mercado reagiu como reage a toda notícia envolvendo as três letras mágicas: aplausos automáticos, ações em alta, manchetes em êxtase. A engenharia é real, o produto é competente, a demanda existe. Até aí, nada a objetar. O problema começa quando se pergunta por que a demanda é desta magnitude, por que o dinheiro está jorrando neste setor específico com esta intensidade histórica, e quem vai pagar a conta quando a música parar.
Porque ela vai parar. Não porque a IA seja uma fraude, ela não é, mas porque o oceano de capital que inunda o setor não nasceu do suor honesto de poupadores que decidiram, em escolha livre e informada, financiar o futuro da computação. Nasceu da expansão monetária dos últimos quinze anos, daquele crédito artificialmente barato que empurrou trilhões para o risco porque a renda fixa virou humilhação. Quando o banco central mantém juros abaixo do que o mercado livre determinaria, o capital foge para ativos de duração longa, para promessas distantes, para narrativas grandiosas. E não há narrativa mais grandiosa, hoje, que a da inteligência artificial.
Siga o dinheiro. Os grandes compradores de chips de memória para IA são meia dúzia de hiperescaladores americanos que, por sua vez, são financiados por um mercado acionário inflado pela mesma expansão de crédito que distorceu todo o resto. Estes gigantes constroem data centers gigantescos baseados em projeções de receita que assumem, implicitamente, que o custo de capital permanecerá próximo de zero para sempre e que toda empresa do planeta vai pagar mensalidade eterna por modelos de linguagem. A Rambus vende picaretas e pás nesta corrida do ouro. Ótimo negócio, enquanto a corrida durar.
O que se vê é a inovação deslumbrante, o desempenho por watt, a largura de banda medida em terabytes por segundo. O que não se vê é o capital que foi desviado de outros usos produtivos, é a poupança de aposentados corroída pela inflação que financiou esta farra, são as empresas médias que não tiveram acesso a crédito porque o crédito foi todo canalizado para os queridinhos da moda tecnológica, são os engenheiros brilhantes que poderiam estar resolvendo problemas de agricultura, saneamento ou energia e estão, em vez disso, otimizando modelos para gerar imagens de gato com chapéu de cowboy.
Nada disso é culpa da Rambus, que cumpre seu papel com competência técnica admirável. A culpa é de um arranjo monetário que transformou o cálculo econômico em chute de mesa de bar, onde ninguém mais sabe qual é o preço real do dinheiro, qual é o retorno real exigido, qual é o risco real assumido. Quando os preços mentem, toda a economia mente. E quando toda a economia mente, a correção, quando vier, será brutal, porque a realidade sempre cobra juros compostos sobre a mentira acumulada.
O SOCAMM2 é uma boa peça de engenharia lançada no pior momento macroeconômico imaginável para celebrações. Comemore o chip, questione o balão. A história da tecnologia está cheia de inovações genuínas que chegaram junto com bolhas financeiras, e a engenharia sobrevive, o capital mal alocado não. Quando a poeira baixar, ficarão as empresas que geravam valor real a custo honesto, e sumirão as que viviam de promessa financiada com dinheiro impresso. Aplauda a ciência, desconfie do preço.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.