A Randstad anunciou, com aquela pompa corporativa que confunde comunicado de imprensa com boletim de vitória, que sua operação voltou a crescer no primeiro trimestre de 2026, com 63% dos mercados em expansão. Os analistas bateram palmas, o papel subiu, os gestores da companhia agradeceram. E ninguém, absolutamente ninguém, fez a pergunta que importa: por que uma empresa cujo negócio é emprestar trabalhadores para que outras empresas não precisem contratá-los diretamente está crescendo tanto, justamente no momento em que o desemprego formal segue teimoso em meio mundo?

A resposta está escrita em letras garrafais em qualquer código trabalhista da última década, e ninguém quer ler. Quanto mais o Estado encarece o contrato direto, com encargos, multas, estabilidades, obrigações acessórias, jurisprudência criativa e tribunais que tratam o empregador como réu por definição, mais lucrativo fica o intermediário que assume o risco, cobra sua fatia e entrega o trabalhador embrulhado em celofane jurídico. A Randstad não cresce apesar da regulação trabalhista. Ela cresce graças a ela. É o caso clássico da cerca que o legislador bem-intencionado ergueu para proteger o rebanho e acabou criando um mercado paralelo de porteiros cobrando pedágio.

Siga o dinheiro, que é sempre o exercício mais honesto em economia. O trabalhador recebe menos do que custa ao tomador de serviço final, porque no meio do caminho há uma multinacional holandesa extraindo margem. O tomador paga mais do que pagaria num contrato direto, porque terceirizar é mais barato do que enfrentar a insegurança jurídica do CLT tradicional. Quem ganha com essa aritmética perversa? A intermediária, claro. E o legislador que criou o labirinto agora posa de defensor do pobre trabalhador, sem admitir que foi ele quem transformou contratação em artigo de luxo.

Há algo de quase cômico, se não fosse trágico, no fato de que as mesmas correntes políticas que demonizam a terceirização são aquelas que, por décadas, construíram o edifício regulatório que tornou a terceirização inevitável. Você criminaliza o contrato direto com dez mil regras e depois se indigna quando o mercado responde criando um ecossistema de biscateiros corporativos com crachá de multinacional. É a hipocrisia travestida de justiça social, tão comum que virou paisagem. A empresa é chamada de vilã por prestar um serviço que só existe porque o Estado o tornou imprescindível.

O que não se vê nesse crescimento de 63% é o emprego formal que não aconteceu, o contrato direto que não foi assinado, o jovem profissional que nunca terá carteira assinada no sentido que seu pai teve, o plano de carreira que foi substituído por alocações trimestrais num cliente ou noutro. O que se vê é o acionista sorrindo. O que não se vê é a economia inteira adaptando-se a uma regulação que ninguém tem coragem de revogar, porque revogar seria admitir que décadas de discurso trabalhista produziram precisamente o contrário do que prometiam. Criaram o capitalismo de intermediários, onde o trabalhador é número, o cliente é RFP e a dignidade virou cláusula contratual.

Celebrar o crescimento da Randstad sem discutir o que esse crescimento significa é como celebrar o faturamento recorde de uma farmácia sem perguntar por que a população adoeceu tanto. A empresa faz seu trabalho, e faz bem. O problema é o sistema que transformou seu trabalho em necessidade. Enquanto discutirmos sintomas e ignorarmos a causa, os acionistas holandeses vão continuar agradecendo, em inglês corporativo, pelo excelente trimestre que o Congresso brasileiro, sem saber, lhes presenteou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.