Raúl Castro apareceu de pé, vestido de oliva, recebendo aplausos protocolares de uma plateia de funcionários que sabem que palmas atrasadas custam emprego e, em Cuba, emprego é comida. O homem foi indiciado em tribunal americano por participação em esquema de tráfico de pessoas envolvendo as chamadas missões médicas, aquele eufemismo charmoso que a imprensa internacional usa há vinte anos para descrever trabalho forçado com selo da ONU. E o que faz o regime? Coloca o velho na vitrine, prova de vida, recado claro: estamos aqui, mandando, e o senhor procurador federal de Miami que se vire com seu papel timbrado.
Vale lembrar quem paga a conta dessa encenação. O governo cubano alugou médicos para Brasil, Venezuela, África e meia dúzia de regimes amigos cobrando em dólar cheio e repassando ao profissional uma fração miserável, com passaporte retido, família refém na ilha e contrato de servidão disfarçado de solidariedade internacional. Estimativas sérias falam em bilhões de dólares anuais entrando no caixa do partido único. Dinheiro que não constrói hospital em Havana, não enche prateleira de farmácia, não chega ao bolso de quem trabalhou. Some no mesmo ralo opaco onde sumiu o açúcar soviético, a ajuda venezuelana e a esperança de três gerações de cubanos.
O detalhe pitoresco é o espanto fingido de certos analistas ocidentais, aqueles mesmos que passaram décadas chamando o regime de experiência social ousada, modelo de saúde pública, alternativa ao capitalismo selvagem. Cuba nunca foi experimento, foi laboratório de uma tese muito antiga: a de que basta um grupo iluminado tomar conta dos meios de produção para que a humanidade floresça. O resultado prático foi balsa improvisada saindo de Mariel, jangada com criança apodrecendo no Estreito da Flórida e uma diáspora de dois milhões de pessoas que votaram com os pés contra o paraíso planejado. Mas a universidade brasileira ainda recebe delegação cubana com tapete vermelho, e a Folha ainda chama Raúl de líder histórico.
O indiciamento americano, por si só, não derruba nada. Castro não vai a Miami buscar intimação, e o Departamento de Justiça sabe disso. O valor da peça está em outro lugar: documentar oficialmente, em jurisdição com força jurídica real, o que ativistas cubanos repetem há décadas e a esquerda envergonhada finge não ouvir. Que o regime é uma quadrilha familiar transformada em Estado, que monetiza corpos humanos como a velha aristocracia monetizava cana de açúcar, e que a moralidade revolucionária é apenas o verniz retórico de um esquema de extração colonial onde o colonizador é o próprio partido.
Enquanto isso, o povo cubano continua na fila do pão que não tem, do remédio que não chega, da internet que o governo desliga quando convém. A juventude que outrora ia para a Sierra Maestra agora atravessa a selva do Darién rumo ao Texas, fugindo do socialismo real para implorar emprego no capitalismo de verdade, aquele mesmo que os professores de Havana descrevem como inferno. Há lições históricas que se repetem sem precisar de nota de rodapé: todo regime que precisa de muro para segurar gente dentro não está construindo paraíso, está administrando cativeiro. E todo octogenário que reaparece sorrindo para a foto está dizendo, na linguagem silenciosa do poder, que enterrar ditador é trabalho que o tempo faz com pressa demais e a justiça com pressa de menos.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.