A Raymond James elevou o preço-alvo da Marvell Technology para 235 dólares, citando "força contínua em data centers" e a inevitável aceleração da demanda por chips customizados de inteligência artificial. Traduzindo do dialeto de Wall Street para o português dos mortais, isto significa que mais um analista de terno colocou um número maior numa planilha porque outros analistas de terno também estão colocando números maiores nas planilhas deles. É a coreografia clássica do consenso, e quem já viu esse balé antes sabe como termina o terceiro ato.
Olha, ninguém aqui está dizendo que a Marvell é uma empresa ruim. Ela fabrica silício de verdade, vende para clientes de verdade, e a Amazon, o Google e a Microsoft estão de fato comprando data centers como quem compra pão na padaria. O problema não está na Marvell. O problema está no que sustenta a demanda dela, e aqui é onde a conversa fica desconfortável para os entusiastas. Quem está bancando essa farra de capex de centenas de bilhões de dólares anuais em GPUs, switches e racks empilhados em galpões no deserto de Nevada? A resposta envolve juros artificialmente baixos por mais de uma década, balanços inflados por recompras de ações financiadas a custo zero, e uma fé quase religiosa de que a inteligência artificial vai monetizar antes que o crédito feche a torneira.
Quer dizer, a história já mostrou esse filme. Em 1999 também havia "força contínua" em fibra ótica, em 2006 havia "demanda sem precedentes" por imóveis subprime, em 2021 havia uma "nova era" para qualquer empresa que colocasse a palavra "metaverso" no prospecto. Toda bolha vem com sua narrativa técnica, suas projeções de hockey stick, seus analistas elevando preços-alvo na semana antes do topo. O ingrediente comum nunca é a tecnologia em si, é o dinheiro fácil que financia a euforia. Tira a impressora do meio, e o sonho racional desinfla até virar tamanho de mercado real.
Siga o dinheiro e a imagem fica nítida. O Federal Reserve manteve juros próximos de zero por mais de uma década, inundou o sistema com trilhões em quantitative easing, e quando finalmente tentou normalizar, descobriu que tinha criado um Frankenstein dependente. Os hyperscalers que compram da Marvell, Nvidia, Broadcom e companhia financiam parte desses investimentos com dívida corporativa emitida em ambiente de spread comprimido. Os fundos que carregam essas ações operam com alavancagem que assume volatilidade baixa para sempre. Tudo isto funciona enquanto a música toca. Quando para, ninguém sobra com cadeira.
Não se trata de torcer contra a inteligência artificial nem de fingir que a tecnologia não é genuinamente transformadora. Trata-se de distinguir transformação real, que acontece em décadas e enriquece sobreviventes selecionados, da euforia financeira que acontece em meses e enterra a maioria dos crentes. A internet mudou o mundo, mas quem comprou Cisco em março de 2000 esperou quinze anos só para empatar nominalmente, sem contar inflação. A inteligência artificial provavelmente mudará o mundo também. Isto não significa que pagar múltiplos de cinquenta vezes lucro para qualquer empresa com "AI" no release seja investimento, é aposta com nome bonito.
Me diz uma coisa: por que ninguém pergunta de onde vem o dinheiro? Os bancos elevam preços-alvo, os gestores compram, os analistas confirmam, a mídia financeira ecoa, e a única dúvida que circula é se a meta deveria ser 235 ou 250. Ninguém quer ser o sujeito chato que pergunta se uma economia construída sobre crédito barato e expectativa de eternidade pode realmente sustentar essas avaliações quando os juros reais voltarem para qualquer coisa parecida com normalidade histórica. O sujeito chato perde no curto prazo e tem razão no longo. Mas o longo prazo, como sempre, chega para todos, inclusive para a Marvell.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.