A Raymond James decidiu que a Snowflake vale mais. Subiu o preço-alvo, citou inteligência artificial como combustível, e o rebanho dos terminais Bloomberg correu para repetir a tese em manchete, gráfico colorido e relatório de meia página. Quer dizer, é só mais um analista de banco fazendo o que analista de banco faz desde que Wall Street existe: colocar selo de qualidade no que o cliente já está comprando. Ninguém em sã consciência acha que um upgrade de preço-alvo da Raymond James é descoberta científica, mas o teatro precisa do figurino, e o figurino hoje se chama IA.
Olha, há um detalhe que ninguém quer falar em voz alta. Toda vez que uma classe de ativos é reprecificada para cima com base numa palavra mágica, alguém está sendo financiado por crédito artificialmente barato em algum lugar da cadeia. A festa da inteligência artificial não brotou do nada, brotou de uma década de juros distorcidos pelos bancos centrais, capital de risco inundando qualquer empresa com a sigla AI no pitch deck, e gestores institucionais com mandato de comprar narrativa antes do balanço. A Snowflake pode até ser uma empresa decente, com produto real e clientes reais, mas o preço dela hoje não reflete a Snowflake, reflete a sede de história que o mercado precisa contar para justificar múltiplos que nenhum modelo de fluxo de caixa descontado honesto sustenta.
Me diz uma coisa, quem ganha com esse ciclo? Os primeiros a entrar, os bancos que cobram fee em cada rodada, os executivos com pacote em opções, os analistas que precisam vender relatório, e a imprensa especializada que vive de clique em manchete otimista. Quem paga? O fundo de pensão do professor aposentado que comprou o ETF de tecnologia no topo, o investidor pessoa física que entrou achando que estava perdendo o bonde, e o contribuinte americano que vai socorrer o sistema quando a próxima rodada de prejuízo bater na porta dos bancos sistêmicos. Sempre foi assim, sempre será assim, e ninguém aprende porque a memória do mercado tem a duração de um ciclo de bônus.
A história econômica está cheia de manias parecidas. Ferrovias no século dezenove, rádio nos anos vinte, conglomerados nos anos sessenta, pontocom no fim dos noventa, imóveis em dois mil e sete, criptomoedas em dois mil e vinte e um. Toda mania carrega um núcleo de verdade, porque ninguém compra mentira pura por muito tempo. Ferrovias eram revolucionárias mesmo, internet mudou o mundo mesmo, inteligência artificial vai transformar muita coisa mesmo. O problema nunca foi a tecnologia, foi o preço pago por ela na fase em que a euforia substituiu o cálculo. E o cálculo, quando feito honestamente, exige descontar fluxos com taxas que reflitam risco real, não taxas manipuladas por comitê de banco central que decide o custo do dinheiro como quem decide o cardápio do almoço.
O que se vê é uma empresa de software promissora ganhando upgrade de um banco de investimento. O que não se vê é a engrenagem inteira que transforma uma análise rotineira num evento de mercado, a expansão monetária que inflou os múltiplos do setor inteiro, o incentivo perverso de cada participante da cadeia, e o destino estatístico de quase toda mania conhecida pela espécie humana. A festa continua enquanto a música toca, e a música toca enquanto o banco central permitir. Quando parar, e sempre para, a Raymond James estará publicando um novo relatório explicando, com a mesma seriedade institucional, por que era hora de revisar o preço-alvo para baixo. E ninguém vai lembrar deste upgrade. Inflação de ativo é roubo silencioso, e o ladrão é sempre o mesmo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.